Para quem não teve oportunidade de ir no evento, segue abaixo o vídeo do Seminário Internacional de Comunicação.
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Quem tem kübler, tem medo
08Jun11
Por uma série de coincidências, nos últimos meses acabei tendo muito contato com meus colegas jornalistas. E obviamente que conversamos sobre o momento que vivemos. Para quem trabalha com comunicação, falar sobre a transição que vivemos é tão padrão quanto falar sobre política, futebol ou o sobre o clima com taxistas.
Tirando a aula na master de jornalismo, cuja discussão foi muito boa e cujos alunos me pareciam bastante conscientes da realidade atual, as conversas que eu tive com donos e gestores de veículos em geral foi bem diferente.
Uma das frases que escutei com certa frequência nestas conversas foi “aqui é diferente”. E como escuto esta frase há 15 anos no mercado publicitário, resolvi escrever sobre isso.
Um destes contatos talvez ilustre bem. Foi para um pedido de palestra vindo de uma associação ligada ao jornalismo. O briefing era bem claro:
- No Brasil, o jornalismo vive uma situação bem diferente dos países desenvolvidos, que estão em crise.
- Aqui o mercado continua crescendo, com vários títulos aparecendo nos últimos anos.
- A circulação cresce fortemente e temos um enorme campo a explorar das classes emergentes. (aliás, este trecho me lembra este post)
Ou seja, tudo são flores na terra brasilis.
Ou eu estou muito errado na minha análise, ou esta e as outras pessoas com que conversei estão passando pelos estágios de um grande trauma.
Em 1969, a psiquiatra Elisabeth Kübler-Ross escreveu sobre os 5 estágios do luto. Em outras palavras, os estágios que passamos quando lidamos com a perda ou tragédia.
Os estágios, devidamente copiados da Wikipedia, são:
- Negação e Isolamento: “Isso não pode estar acontecendo.”
- Cólera (Raiva): “Por que eu? Não é justo.”
- Negociação: “Me deixe viver apenas até meus filhos crescerem.”
- Depressão: “Estou tão triste. Por que se preocupar com qualquer coisa?”
- Aceitação: “Tudo vai acabar bem.”
A tragédia, neste caso, é a revolução que estamos vivendo. Uma transição que derruba barreiras de entrada em uma série de modelos de negócios baseados na revolução industrial.
Uma transição que deixa os líderes mais tradicionais sem chão e sem saber para onde correr para manter faturamento, lucratividade e poder.
Pelas minhas experiências, eu diria que os publicitários estão no estágio 3, 4 ou 5. Nem todo mundo está no mesmo patamar, mas eu diria que a negação e a raiva já passaram para a maioria deles.
Agora, em relação ao jornalismo, visto minhas últimas conversas, diria que ainda estão no primeiro estágio: a negação.
Para estes, #ficaadica que os publicitários já aprenderam: não, o Brasil não é diferente.
E, por favor, fiquem logo com raiva.

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Seminário Internacional de Comunicação
02Jun11Convidado pela Mônica Paula, coordenadora de Comunicação do Master em Jornalismo, vou participar do Seminário Internacional de Comunicação 2011, promovido pelo IICS e Universidad de Navarra.
Vou falar sobre o dilema do modelo de negócio sustentável: conteúdo gratuito x conteúdo pago.
O programa está aqui, espero ver vocês lá.
Curadoria
02May11
Há algum tempo atrás, escutei uma teoria daquelas boas para se espalhar e contar em mesa de bar. A teoria é a seguinte:
Antigamente, quando existiam poucas opções, éramos obrigados a consumir o que nos era imposto. Portanto, acabávamos ouvindo outras opiniões e experimentando novos gostos.
Por exemplo, com apenas uma TV em casa e como único centro de entretenimento, a família toda era obrigada a ver uma única programação, que nem sempre era do gosto de todos. Se você não gostava de novela mas sua mãe sim, voilà, você seria “obrigado” a ver novela.
Hoje, com tantas opções, consumimos apenas aquilo que gostamos e que nosso pequeno círculo de amigos nos indica, sendo assim, dificilmente somos expostos a novas opiniões e novas experiências.
É um paradoxo. Temos opções mas ficamos sempre presos no nosso mundinho. A teoria tem impacto e, talvez por isso, já foi golfada por alguns “pensadores” brasileiros do mercado de comunicação.
Eu acho um absurdo tremendo. É falaciosa e enganosa. Para alguém escroto e direto como eu, é muito difícil ficar nos eufemismos e não chamar esta teoria de estupidez tremenda.
Engraçado que as pessoas que escutei falando da tal teoria são justamente as mesmas que gostam de citar a teoria do Long Tail em palestras.

O pior que eu vejo nisso tudo, é que a teoria coloca a transição que vivemos (de ter mais opções) como algo ruim.
Então, só como exercício lúdico, vamos imaginar que a teoria esteja correta. Qual seria a consequência?
Existiria o risco de virarmos pouco aberto as opiniões dos outros?
Então é muito melhor do jeito que estava né? Quando só a opinião do big brother importava e não tinha risco disso acontecer.
Pufffz. Quanta bobagem. Por isso que eu sempre digo: guru é pra jacu.
Master de Jornalismo
17Apr11Convidado por Anderson Hartmann, Coordenador do Departamento de Comunicação do Instituto Internacional de Ciências Sociais (IICS) e da Universidad de Navarra, tive o prazer de lecionar duas aulas para a Master em Jornalismo Digital.
Passei três horas e meia discutindo com os alunos sobre modelo de negócios. Antes de dar respostas, inseri várias perguntas no meio da aula para incentivar a discussão. A figura abaixo é uma delas.

Fiz isso não somente por acreditar que não existem respostas prontas ou fórmulas mágicas, mas também por ter certeza que a discussão nunca foi tão fundamental como agora.
O cenário atual que publicidade e jornalismo enfrentam têm semelhanças não apenas na mudança de comportamento do consumidor (e tudo aquilo que a gente já sabe), mas também pelo fato dos dois grupos sempre terem ignorado a importância de aprender a pescar, ou seja, de discutir modelo de negócio ao invés de ficar discutindo modelo de receita.
Tenho minhas teorias dos porquês, mas isso é assunto para outro texto.
Com problemas e despreparo similares, vejo também semelhanças na maneira como a maioria das empresas (de jornalismo ou de publicidade) têm lidado com o assunto, gerando um ciclo vicioso que considero mortal.
- Quanto mais dificuldade, mais difícil fica para manter a margem
- Para manter margens, a solução padrão tem sido cortar custos
- Para cortar custos, a solução padrão tem sido cortar folha
- Cortar folha significa matar o talento
- O talento é o que nos diferencia
- Sem diferencial, a concorrência fica ainda mais cruel
- Concorrência mais cruel, mais difícil ainda manter a margem.
Está criado um ciclo vicioso.
E esse ciclo, me levou a inserir outra pergunta na discussão:
nós viramos commodity?
As editoras continuam perdidas
05Apr10A revista Época Negócios de março saiu com uma extensa matéria sobre os eBooks, com várias entrevistas. Recomendo a leitura.
O que mais me chamou atenção, foi que mesmo tendo o histórico de outros setores, as editoras ainda não entenderam a mudança que está acontecendo em sua própria indústria.
Na cabeça deles, parece que a questão ainda é baseada na entrega, do papel para o eletrônico.
Ainda acredita-se que o formato atual de produção e conteúdo não irá mudar, alterando apenas o formato de entrega.
criado por redações onde múltiplos talentos se somam e se complementam de uma forma harmoniosa
uma pessoa não tem condições de reunir toda a massa de opinião é capaz de configurar um retrato do que aconteceu de relevante no mundo num dado período de tempo
para compor este retrato, é necessário uma equipe ampla e dispersa, atuando coletivamente
produzir jornalismo independente e de qualidade é uma operação cara
Eles estão certos nas afirmações. Se estamos pensando em fazer isso debaixo de uma única bandeira, um grupo editorial, uma empresa ou um CNPJ, ninguém tem mais condições de fazer isso do que os grandes grupos editoriais.
Mas esta visão ignora que o livro eletrônico é apenas parte da mudança e, talvez, a parte menos importante. É um conselho que dou para todos os meus clientes. Olhem para o processo de digitalização como um todo e não apenas parte dele. Uma loja de varejo não pode olhar apenas para o e-commerce. A indústria da música não pode olhar apenas para o MP3. E as editoras não podem olhar apenas para o eBook.
As editoras ainda não entenderam que o poder de fragmentação, da coletividade e das novas ferramentas que estão aparecendo são parte importante deste processo.
A mudança iria acontecer mesmo sem o eBook, que veio apenas para acelerar o processo.
Outro erro grave nesta visão é olhar para o próprio umbigo, acreditando que o conteúdo será o mesmo.
É uma discussão parecida com a discussão sobre televisão que já tivemos aqui no Blog. Será mesmo que o que empurramos para as pessoas é o que elas irão buscar quando puderem escolher?
Não é “o conteúdo que terá que se adaptar aos novos dispositivos de visualização”, mas os produtores de conteúdo que terão que se adaptar ao desejo do consumidor. Parece um jogo de palavras, mas é algo totalmente novo. E diferente.
Tem alguém disposto a pagar por conteúdo?
30Nov09
É a pergunta que muitas empresas estão se fazendo neste momento. Entre elas, o pessoal que hoje vive de mídia impressa.
Vai parecer punheta de consultor, mas a melhor maneira de responder esta pergunta é fazendo uma pequena alteração na frase, evitando usar a palavra “conteúdo”.
Por exemplo, quando um jornal parar de se perguntar se alguém irá pagar pelo conteúdo, precisará reformular outras perguntas. Estas, mais fáceis de serem respondidas.
O termo conteúdo é muito amplo e acaba colocando tudo no mesmo saco, ficando difícil de pensar ou discutir a respeito. Conteúdo envolve conteúdo bom e ruim, conteúdo com diferencial e sem diferencial, conteúdo que alguém pagaria e também o que ninguém pagaria.
Se não puder perguntar se os leitores pagariam por conteúdo, um jornal teria que passar a se fazer outras perguntas. Seus leitores pagariam por notícias? Claro que não, notícias estão em todo lugar. Eles pagariam por notícias diferenciadas ou exclusivas? Pagariam por curadoria ou por opinião?
Conforme as perguntas forem ficando mais específicas, fica mais fácil dizer sim ou não. Também fica mais fácil articular novas perguntas.
Exclusivas quanto? Opinião de quem?
E quem pagaria por isso, todo mundo ou somente uma parte das pessoas que hoje assinam nosso serviço?
E de brinde, ficaria mais fácil entender quem é seu público e quem seriam seus concorrentes. Nem sempre o concorrente de um jornal seria outro jornal.
Outra vantagem deste exercício, é que a pergunta deixa de ser focada em um cenário onde o culpado é o consumidor (exigente e egoísta, que não quer pagar por nada) para um cenário onde o culpado é o provedor de conteúdo, que não tem algo bom o suficiente para se fazer cobrar por ele.
Quando a culpa é dos outros, é mais fácil ficar reclamando e não fazer nada para melhorar. Quando é nossa, bom, pelo menos temos uma pressão moral para fazer algo.
Este ano, Internet bate Revista
24Sep09
Apenas entre amigos, para não arrumar mais confusão do que o costume, dizia que o investimento em Internet iria passar revista este ano, mas que esta passagem não seria anunciada pelo mercado.
Há mais de dois anos eu venho defendendo aqui no blog que o investimento em internet é bem maior do que o divulgado.
Os tais 4% da Internet brazuca só levam em conta alguns veículos. Poucos eu diria, pois a fragmentação hoje já é bem grande. Também ignora investimento em conteúdo, em palavras chave e até a venda casada/conjunta com meios tradicionais. Aqueles pacotes que leva TV ou revista + site, que são sempre contabilizados na conta do meio tradicional.
Lá fora, esta migração não contabilizada também já foi prevista. Ano passado, a empresa de pesquisa Outsell Inc. disse que 62% do investimento digital americano era feito em projetos próprios.
Mês passado, a pesquisa da agência iThink disse que o investimento online atinge 7%, se levarmos em contas links patrocinados, construção de sites, etc.
Também bate com a argumentação do Sant’lago, da MídiaClick, que mostrou que o faturamento do Google Brasil sozinho poderia dobrar o tamanho do mercado.
Como sempre, tem estimativas e tem margem de erro, mas são indícios fortes para comprovar o que venho falando por aqui desde 2007.
Além disso, talvez agora já possa dizer, de forma menos polêmica, o que antes eu só falava para os amigos mais próximos. Internet bate revista este ano no Brasil e, em poucos anos, passará também o Jornal.
Anúncio é conteudo?
03Aug09Há algum tempo atrás, o Google modificou seu sistema de leilão, passando a levar em conta a qualidade do anúncio.
Como o Google ganha por anúncios clicados, para leigos pode parecer como uma prática comercial para priorizar os anúncios mais clicados, mas a lógica é outra. Para não perder relevância, o Google precisa continuar tendo qualidade em sua resposta, mesmo em seus anúncios.
O pensamento não está de olho no lucro do curto prazo. Não se trata de ganhar mais grana com um anúncio picareta que conquiste muitos cliques, mas em manter a taxa de cliques alta por entregar comerciais que tenham relação real com a pesquisa realizada.
Afinal, pago ou não, os anúncios fazem parte da recomendação de busca do sistema. Usando a mesma lógica, acredito que todos os veículos, digitais ou não, deveriam selecionar seus comerciais.
Você pode até argumentar que não seria viável comercialmente ou que ninguém teria coragem para tomar esta atitude, mas a lógica é a mesma. Comercial ruim atrapalha a experiência do consumidor no veículo.
Não precisa ir longe, quem nunca trocou de canal ou estação de rádio quando percebeu novamente aquele comercial chato? Esta sensação se torna evidente em canais de TV por assinatura, cujos intervalos chegam a levar 5 minutos e muitas vezes recheados com comerciais de resposta direta e os produtos mais vagabundos do mundo.
Ou quem nunca ficou puto quando percebeu que a TV por assinatura passou a mostrar vários intervalos de 5 minutos durante o mesmo filme?
A única dificuldade que eu vejo seria a nota de corte. O Google tem maneiras para medir a relevância do comercial, comparando seu conteúdo com a palavra de busca e a página que ele remete, assim como também tem a resposta imediata dos usuários. Seu sistema é melhor do que qualquer pesquisa de amostragem, mas com toda a tecnologia de hoje, seria viável implementar algum sistema de qualidade em outros veículos, mesmo os tradicionais. Como eu disse, a barreira não é tecnológica, e sim político-econômico-burocrática.
Decadence avec elegance
30Jul09
Por que não falamos sobre a crise? Por que nenhum veículo especializado no mercado de comunicação, seja ele online ou offline, falou mais profundamente sobre isso? Pensei muito sobre isso e não consegui chegar a nenhuma conclusão. Não sei se é medo, cultural, fuga ou alguma estratégia para proteger o mercado.
Só no começo do ano, foram centenas de profissionais de comunicação para a rua, isso se contarmos apenas as maiores agências.
Não existe crise? Falar sobre isso aumentaria o problema? E não falar sobre isso, garante que passaremos por ela de forma mais suave? Garante pelo menos manter uma imagem de que está tudo bem na terra do rei?
Há muito tempo que eu já dizia, toda essa chinfra não te garante.
Seria fácil sustentar que os seniores que perderam o emprego refletem apenas uma adaptação do mercado à nova realidade, mas como ignorar todos os fatos, vendo que todos os níveis hierárquicos sofreram cortes duros.
Pelas minhas contas burras e informais, em meio semestre, as maiores agências deixaram sem emprego no mínimo 20% de seus profissionais.
Talvez seja um misto das duas coisas. A tal crise com a adaptação a uma nova realidade, mas por que este assunto não vem a tona. Nem sei se deveríamos discutir isso a exaustão, mas este silêncio me incomoda um pouco.
Costumo dizer que alguns veículos de comunicação não são irrelevantes mas já perderam a relevância. Isso vale para alguns veículos do nosso trade. Um jogo de palavras para mostrar que muitos sobrevivem apenas do passado, suportados pela marca.
E nos dias de hoje, com a concorrência da Internet, perder a relevância é o primeiro passo para perder a importância.
Afinal de contas o fim do mundo não é nenhum fim de mundo.
E se for… Descanse em paz.


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