Mediocridade como objetivo


clique para ampliar

Olhe para os produtos a sua volta.

Pense em como melhorá-los.

Não falo de funções super avançadas, pense no básico. Pense em como você usa, o que te incomoda, o que poderia ser facilitado.

O exercício é interessante.

Por exemplo, quem aqui tem aparelho eletrônico no quarto? Uma TV, um media center, um box da TV a cabo, etc. Não fica irritado com aqueles LEDs fortíssimos que deixam o quarto parecendo uma discoteca enquanto você tenta dormir?

Pois bem, é tão óbvio, simples e barato implementar uma solução para isso que dá até raiva. Não precisaria nem ter um sensor de luz para adequar automaticamente a intensidade do LED, bastaria uma configuração no menu do aparelho para desligar ou mudar para 10% da luminosidade padrão.

E o controle remoto, será que seria complicado criar um sistema para nunca mais ficar perdido? Bastaria apertar um botão na TV — que nunca sai do lugar — e o controle começaria a apitar, assim como fazem os telefones sem fio há anos.

A pergunta correta é, por que diabos nunca ninguém fez isso? Será que ninguém nunca pensou nisso? Duvido! Engenheiros e cientistas também usam aparelhos de TVs em casa.

Sir Jonathan Ive, Senior Vice President Industrial Design da Apple, disse em entrevista que seus concorrentes tem objetivos errados. Segundo ele, enquanto a Apple procura fazer produtos melhores, os outros tem foco em coisas diferentes, como um cronograma, um preço ou até um plano de marketing.

Mesmo se o objetivo fosse apenas lançar algo novo ou diferente, ainda assim o foco estaria errado. No final das contas, ser novo ou diferente sem ser melhor continua sendo uma jogada de marketing.

Eu sou mais direto e digo que o objetivo da maioria das empresas é a mediocridade.

Veja bem, ser medíocre é ser mediano. Se Sir Ive está correto — e eu acho que está —, para estas empresas, o produto é secundário. Se é secundário, não precisa ser o melhor, precisa ser entregue. O foco então é entregar com o mínimo possível.

Algumas indústrias fazem isso com “excelência”, lançando versões novas de produtos cuja mudança parece piada do programa Saturday Night Live. Algo tão comum como um modelo novo de carro com a mudança do desenho de sua lanterna como diferencial.

Existe um padrão que é colocado como patamar aceitável. Como um leilão da mediocridade, ganha quem der o menor lance, o menor incremento, a menor melhoria.

Por isso, quando a Apple lança um produto revolucionário, o mercado apenas muda sua régua, passando a lançar cópias desse produto.

O objetivo não é fazer melhor, e sim ter alguma desculpa para o pessoal de marketing tentar vender o produto. Usando o exemplo dos celulares, o invés de fazer algo melhor que o iPhone, os concorrentes lançam uma cópia barata com uma tela maior ou uma câmera com mais megapixels.

Nada diferente das melhorias incrementais e ordinárias que já eram feitas antes do patamar aceitável mudar de nível.

E por que isso acontece? Acredito na mesma explicação: também é uma questão de foco.

Antigamente as empresas iam até o mercado financeiro pegar dinheiro para financiar seus produtos e serviços. Com o sucesso, o lucro viria como consequência.

Em algum momento, algo deu errado e as empresas tiveram uma inversão de valores.

Agradar a necessidade de curto prazo do mercado financeiro passou a ser o objetivo e, como consequência, chegamos o cenário título deste post.

Pense nisso quando for dormir, enquanto o maldito LED fica olhando pra você.

18 comentários

  1. @alechumer says:

    Texto perfeito Cava,
    A Apple está colhendo frutos por ter ido além. Não escolheu a régua, como vc colocou, como patamar para seus seus produtos.

  2. Doug says:

    Ótimo texto. Vou pensar nisso, agora que meu blog está crescendo.

  3. Jorge Carvalho says:

    É impressionante como no Brasil o diferencial é somente entregar. Parece piada mas quando o produto/serviço entrega o prometido já achamos excelente. E olha que é bastante difícil, não importando o setor. Estamos nivelados por baixo. Discordo de você somente quando fala que ser diferente é o foco errado. O foco deve ser sim solucinar um problema de maneira diferente e que não está sendo contemplado pelo mercado. É o tal do ser e não apenas parecer diferente. O problemas maior é que o ambiente de negócios no Brasil é cheio de entraves para dificultar novos entrantes com visões diferentes.

  4. Leo Beraldo says:

    As empresas hoje tem como objetivo dar retorno aos acionistas, tudo o mais é secundário. Isso sem nem falar das que tem dinheiro de Venture Capital, em que o objetivo é crescer o mais rápido possível para vender depois.

  5. Ron Kass says:

    Ridiculous upgrades?
    iPhone 4S
    Should I say more?

    • cavallini says:

      Acho que precisa. Contae o que acha. O iPhone 4S prova que a Apple tb tem foco em entregar produtos novos sem nenhuma melhoria substancial, é isso?

      Se for isso posso contribuir falando um monte de produtos mediocres que ela ja lancou. Posso comecar falando do AppleTV que todo mundo ama e eu acho um lixo piorado do que existe no mercado de media center.

      Eu só nao concordo que os erros da apple sejam prova de sua mediocridade, mas ja falei disso em outros posts.

      E nao acho que o 4S deveria servir de exemplo tb. Toda inovacao vem seguida de melhorias incrementais. Ainda acho que o iPhone esta surfando essa onda e que sua inovacao é muito maior do que o aparelho de telefone em si (tambem ja falei sobre isso aqui no blog).

      Enfim, acho que essa discussao sobre Apple sempre será acusada como suspeita por alguem ser fã ou detrator da empresa.

      O ponto principal é que, mesmo que a Apple seja mediocre tambem, continuo com a minha critica principal: a maioria das empresas tem foco na mediocridade.

  6. ACParucker says:

    Essa idéia do localizador do controle da tv igual ao telefone sem fio também já tive. Até mandei um e-mail pra samsung pra colocarem isto. Nunca responderam! hahah

    Mas essa mediocridade acho que ainda é resquicios da era industrial talvez, que a intenção era apenas produzir em massa e vender e vender.

    Empresa ter que pensar? inovar? criar? se encomodar? A zona de conforto é tão boa e paga as contas…

    • cavallini says:

      pois é, a ideia é obvia demais.
      eu estou falando sobre esse lance de herança maldita da era industrial em um dos livros que estou escrevendo. Vamos ver se sai.

  7. Jilo says:

    O problema do bip no controle é a pilha, Cava. Você coloca um buzzer no bixinho e a pilha que durava 4 anos vai acabar em 6 meses. Aí vai ficar todo mundo louco da vida!

    • cavallini says:

      consome a bateria quando for usado, correto?
      e aposto que as pessoas preferem perder a vida da bateria do que a vida delas procurando o controle :D

      • Jilo says:

        Nope. O controle remoto só ativa circuito quando você aperta um botão. Daí ele vai lá e pisca um emissor IR por frações de segundo. 99.999% do tempo ele não faz absolutamente nada. Para colocar o localizador você precisa de um receptor de RF ligado 24/7 comendo pilha.

        Não é que eu não concorede com você no artigo, é só que ãs vezes as coisas que parecem tão óbvias não foram feitas por que não compensam.

        Como energia elétrica sem fio, por exemplo ;-)

        • cavallini says:

          Se a bateria durar 6 meses ao inves de 2 anos como vc comentou, ainda esta valendo.

          Quer saber a real, quem tem filhos (que sempre somem com o controle remot) iria preferir mesmo que durasse só um mês :D

          Isso se ninguem quebrar a cabeça e fazer algo melhor, como por exemplo fazer a checagem a cada 30 segundos, por exemplo.
          E vende a bagaça como opcional se for o caso.

          O problema é que nego acha que nunca vale a pena fazer um controle remoto mais caro. É a velha régua estabelecida. Pro mais (mais funcoes) e pro menos (mais simples). A maioria dos controles remotos sao horriveis e imprestaveis. O design é um lixo em todos os aspectos (beleza e funcionalidade).

          Mas ainda que esse exemplo nao sirva, a crítica se mantem.

          E energia eletrica sem fio ta chegando ai, pode acreditar :D

  8. Jilo says:

    Como opcional, já existe: http://www.keyringer.com/

    E o Controle remoto vai morrer, o smat phone vai tomar conta. Só falta vir com IR de fábrica.

    A melhor que eu ví acontecer foi a filha de um conhecido nosso que ligou os 32 PIPs que a TV Pioneer gigante e importada suportava e defenestrou o controle remoto.

    Mais de mês esperando reposição, com os PIPs travados lá.

    Pelo menos isso os fabricantes melhoraram, com quatro botões no aparelho e um OSD menu.

    E sim, a energia elétrica sem fio está chegando, mas com todas aquelas limitações que já conversamos… ;-)

  9. pedro says:

    só achei infeliz o uso da apple como exemplo. Eles deviam ser exemplo da mediocridade, o que eles fazem alem? Se tem alguem que se recusa a ousar e se apoia basicamente em design e marketing e a apple. Des de que lançaram o primeiro iphone o que mudou? Design, colocaram uma camera mais potente e uma tela mais bonita. Fizeram uma versão grande porem igual e lançaram o primeiro ipad com um monte de coisa faltanto só para poder atualizar alguns meses depois.

    • cavallini says:

      acho que o assunto é maior que os exemplos, nao importa se gostam do exemplo positivo (apple) ou dos negativos (quem copia a apple) ou até mesmo do exemplo do LED.

      mas…. só para nao ficar sem dar opiniao, vamos la. Primeiro o fato: todos imitaram a apple, entao vale como exemplo para o texto.
      o que poderiamos discutir é se a propria apple nao parou de inovar, visto que ja sairam algumas versoes de iPhone e iOS apenas com melhorias incrementais. sobre isso, eu tambem concordo em partes (ou seria, discordo em partes). Acho que ATÉ o iPhone 4, tambem era uma discussao besta, pq a apple estava lucrando com sua inovacao inicial, fazendo valer o investimento e o risco inicial. Mas concordo que agora ja estava na hora de dar um novo passo pra frente.

Deixe seu comentário

Spam Protection by WP-SpamFree

Para receber email sobre novos comentários sem precisar comentar: