Monthly archives: April 2010

Integração vem de cima

clique para ampliarQuando a gente levantava as pedras do jardim, tinha umas cobras, feias, branquelas, mas inofensivas, que espalhávamos nos bolsos, debaixo dos travesseiros, nos sapatos. Até o dia da bronca e da mesada suspensa.

Integração é uma palavra mais chata que sinergia, mas quer dizer a mesma coisa, e também trezentos e sessenta graus é mais monótono do que transmídia, mas é la même chose e tuti quanti, etc. e tal.

Da série “questões que não gostamos de levantar”, por que mesmo esse papo é irritante?

Falar em integração para terceiros é como escorregar uma serpente no cangote: quer dizer que não temos ou que está mal resolvido. Não é discurso que se venda, porque ninguém precisa saber a receita pra gostar de um prato. Integração deveria ser uma palavra para se xingar só na intimidade e geralmente usada na negativa: desintegração.

Integração da mídia com a criação com o planejamento e com o atendimento não se promove em reunião. Como é cultural, é também na hora do café e do mictório coletivo. É afinação de visões mesmo que as opiniões sejam diversas. É todo mundo empurrando o fardo na mesma direção, mas concentrado na sua tarefa.

Integração é uma função direta dos perfis de profissionais e principalmente da liderança, cuja única atribuição deveria ser essa: dizer para onde vamos. E como é a liderança que escolhe os perfis, integração, contrariamente ao que se pensa, vem de cima, e não o contrário.

A gente pode até promover encontros alegres, abraços coletivos, cursos de autoajuda e outras manifestações folclóricas que tais, mas, se os caciques não sabem ou não dizem para onde temos que remar, a integração não passará nunca daqueles morvets horríveis com os quais aprontávamos quando criança.

Daí, vem a outra integração que está mais na moda. Essa vadia dessa Internet causando, como sempre.

Tenta-se de tudo: apartar os nerds dos maconheiros, misturar os virtuais com os reais, grudar os mídia-mortas com um escravo mídia-viva ou o contrário. E tem até quem pense que tem que ter uma constelação de empresas coligadas trabalhando “em nível de integração”.

Funciona por soluços: muda a estrutura e dá um salto. Daí, engasga e tem que mudar de novo pra avançar mais um pouco. É um método. Cansativo.

O outro é decidir, tiranicamente, top-down, e punir severamente quem ousar pronunciar a palavra on-line e off-line, demitir sumariamente quem perguntar “E pra Internet, o que vai ser?”. É outro método. Doloroso.

Melhor tirar esparadrapo de uma vez ou aos pouquinhos?

Green Google

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Vira e mexe, o Google aparece na mídia graças as suas iniciativas verdes no uso de energia. Já até apareceu pressionando o governo americano para diminuir o uso de carvão e de petróleo.

Esta semana, saiu no TechCrunch que eles haviam comprado uma empresa que desenvolve novos métodos de enriquecimento de urânio. Claro, também pode servir para desenvolver armas e bombas nucleares, mas o que todos acreditam é que a iniciativa serviria para ajudar a reduzir a pegada de carbono da empresa. A informação foi negada mais tarde Google.

Mas será que o Google está tão preocupado assim com o planeta? Será que se estivessem realmente preocupados, teriam mesmo vindo para o Brasil discutir sobre biodiesel em seu avião particular, um Boeing 767 remodelado que gasta 1.550 galões de combustível por hora?

Este luxo é comum em empresas deste porte? Claro que é, mas este é justamente o meu ponto. Neste aspecto, o Google é uma empresa como outra qualquer.

E talvez por isso, pode existir uma outra possível explicação para este engajamento verde. Menos romântica, mas muito mais simples.

Se olharmos hoje para o Google, de onde vem a maior parte do custo hoje?
A resposta seria em duas frentes: inteligência e data centers.

Se explodirmos as duas frentes, chegaremos em uma lista mais ou menos assim: mão de obra, computação (processamento, armazenamento e memória), tráfego (links), aluguel e energia elétrica (incluindo o necessário para resfriar o local).

Com o avanço da tecnologia, está tudo ficando mais barato. Mesmo o custo do aluguel, que não é ligado diretamente a tecnologia, também tende a diminuir, pois com o auxílio da internet, é possível fazer uso de mão de obra a distância e buscar lugares mais baratos para escritórios e data centers.

Mão de obra eu também defenderia que tende a ficar mais barato, mas não importa. Mesmo que não fique, o importante é que, de todos acima, o único componente que não deve cair o preço e que o Google pode fazer alguma coisa para reverter é energia elétrica.

Segundo o Gartner, o custo de energia está crescendo muito e já ocupa o segundo lugar na lista de principais custos operacionais na maioria dos data centers.

Sendo assim, o que o Google busca pode não ser uma energia verde, mas sim energia alternativa. Uma que deixe seus custos mais baixos no futuro. No final, ganhamos todos. A lógica da sustentabilidade é justamente essa. Mas daí a pintar alguém de bonzinho, tem um longo caminho.

As editoras continuam perdidas

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A revista Época Negócios de março saiu com uma extensa matéria sobre os eBooks, com várias entrevistas. Recomendo a leitura.

O que mais me chamou atenção, foi que mesmo tendo o histórico de outros setores, as editoras ainda não entenderam a mudança que está acontecendo em sua própria indústria.

Na cabeça deles, parece que a questão ainda é baseada na entrega, do papel para o eletrônico.

Ainda acredita-se que o formato atual de produção e conteúdo não irá mudar, alterando apenas o formato de entrega.

criado por redações onde múltiplos talentos se somam e se complementam de uma forma harmoniosa

uma pessoa não tem condições de reunir toda a massa de opinião é capaz de configurar um retrato do que aconteceu de relevante no mundo num dado período de tempo

para compor este retrato, é necessário uma equipe ampla e dispersa, atuando coletivamente

produzir jornalismo independente e de qualidade é uma operação cara

Eles estão certos nas afirmações. Se estamos pensando em fazer isso debaixo de uma única bandeira, um grupo editorial, uma empresa ou um CNPJ, ninguém tem mais condições de fazer isso do que os grandes grupos editoriais.

Mas esta visão ignora que o livro eletrônico é apenas parte da mudança e, talvez, a parte menos importante. É um conselho que dou para todos os meus clientes. Olhem para o processo de digitalização como um todo e não apenas parte dele. Uma loja de varejo não pode olhar apenas para o e-commerce. A indústria da música não pode olhar apenas para o MP3. E as editoras não podem olhar apenas para o eBook.

As editoras ainda não entenderam que o poder de fragmentação, da coletividade e das novas ferramentas que estão aparecendo são parte importante deste processo.

A mudança iria acontecer mesmo sem o eBook, que veio apenas para acelerar o processo.

Outro erro grave nesta visão é olhar para o próprio umbigo, acreditando que o conteúdo será o mesmo.

É uma discussão parecida com a discussão sobre televisão que já tivemos aqui no Blog. Será mesmo que o que empurramos para as pessoas é o que elas irão buscar quando puderem escolher?

Não é “o conteúdo que terá que se adaptar aos novos dispositivos de visualização”, mas os produtores de conteúdo que terão que se adaptar ao desejo do consumidor. Parece um jogo de palavras, mas é algo totalmente novo. E diferente.

O que você acha?

Por estar há tempos no mercado, muita gente me pede indicações ou referência de candidatos que estão sendo entrevistados.

Mas de tempos em tempos, escuto uma velha pergunta:

Contratei fulano(a), o que você acha?

Eu, com a minha eterna elegância e delicadeza, respondo:

Se minha opinião fosse importante, você teria me perguntando antes de contratá-lo(a).

É lógica simples, mas também prova de minha tosquice. Por isso pergunto, vocês acham que eu deveria ter postado este texto? :-D