Gestão por decreto


Gestão por decreto = Números torturados = Estímulo ao não ético

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Muito já foi escrito e comentado que a crise financeira pela qual o mundo vem passando é na verdade uma crise de ética. Eu gostaria de ampliar um pouco mais essa questão, indo além do lado financeiro, e refletir se os modelos de gestão e a postura dos administradores não acabam por estimular um comportamento não ético nos colaboradores da empresa.

Não se faz gestão e nem se alcança a excelência por decreto. Mas o que vemos, na maioria das vezes, é que as metas da empresa são definidas sem seguir um método, sem identificar quais os pontos que devem ser melhorados, focando apenas a definição de um número mágico, que deve ser alcançado no curto prazo, ao invés de definir as causas, estabelecer um plano de ação com metas intermediárias para alcançar o resultado no longo prazo.

Como escrevi, o que ocorre é justamente o contrário. E, como na maioria das vezes, essas metas sempre estão atreladas ao recebimento de bônus, é aqui que mora o perigo, pois, uma vez que isso mexe no bolso dos colaboradores da empresa, isso acaba por estimular que sejam feitas as chamadas contas de chegada, ou seja, se eu tenho que alcançar um número X em um determinado objetivo, a preocupação passa a ser como faço para que os números cheguem a X, privilegiando o curto prazo, ao invés de focar quais as ações que eu devo estabelecer para alcançar a meta e manter esse desempenho sustentável.

Desempenho sustentável que é um dos desafios criado pelo auto denomininado “Brigada de renegados”. Os sistemas atuais de desempenho têm muitas falhas. Valorizam demais o atingimento de objetivos de certos objetivos – atingir metas de lucro no curto prazo, por exemplo – e dão pouca atenção a outras metas importantes, como erguer novas plataformas de crescimento. Em geral, não levam em conta fatores sutis, porém críticos, do sucesso competitivo, como o valor da inovação movida pelo cliente. Para superar essas limitações a empresa terá de criar sistemas de mensuração do desempenho mais holísticos. A atual fragmentação dos objetivos, e dos desafios da gestão, por função deixam os administradores sem uma visão holística dos desafios que ele enfrenta no cotidiano.

As escolas de administração já estão tomando providências nesse sentido. Na edição de junho/2009 da Harvard Business School foi publicado artigo com o título “Responsabilidade termina (e começa) na faculdade de administração”. Segundo o autor, Joel M. Podolny, após o colapso da Enron, a faculdade de Harvard instituiu uma disciplina obrigatória sobre liderança e responsabilidade empresarial, mas mesmo assim, diante da crise financeira atual, não foi feito o bastante para equipar os alunos a tomar boas decisões. Diante desse cenário, eles cogitam promover mais mudanças na grade curricular do curso e nos seus métodos de ensino. O autor sugere que seja criado um código de conduta para os administrados e cassar o diploma de quem violar as normas.

Nesse mesmo artigo, o autor argumenta que as falhas no atual sistema de ensino da administração, eximindo-se de ensinar valores e ética, parece ter convencido os alunos de que, uma vez instalados em postos de destaque, sua única responsabilidade era definir a visão, formular uma estratégia e traçar uma pauta. Aos subordinados caberiam definir os detalhes. O líder só teria que se preocupar se os resultados forem piores do que o esperado e houver necessidade de mudança, não cabendo a ele ter conhecimento dos meios utilizados para alcançar os resultados, afinal de contas, eram apenas detalhes.

Está mais do que na hora de uma revisão ampla nos sistemas de gestão empresarial, que passe a dar tanta importância a valores – como transparência, integridade, colaboração e sustentabilidade – quanto à capacidade analítica e foco no retorno financeiro, passando a incentivar que todos encararem os desafios da gestão com uma visão mais holística, de forma a evitar que comportamentos não éticos sejam estimulados nos colaboradores da empresa.

Marcelo Bastos, o Marcelão, é Consultor de Projetos de tecnologia no Banco do Brasil e updater no blog da HSM.

14 comentários

  1. Texto publicado inicialmente no excelente blog da HSM.

    Seja bem vindo ao coxa Marcelão.

  2. Acho a iniciativa de Harvard uma espécie de band-aid para curar uma fratura exposta. Não há necessidade de se ensinar ética se a teoria é lida e praticada de forma correta. Não vejo em nenhum currículo algo como: fraude os órgãos de justiça ou procure pagar mal e criar um ambiente mega competitivo em sua empresa. Mas isso é feito. As soluções estão muito mais no perfil da pessoa e num comportamento ético do que na existência de matérias sobre ética. Não serão elas que transformarão os MBAs em pessoas com melhor caráter aos 35 anos.
    O problema da visão de curto prazo está intimamente ligada ao fato das empresas listadas em bolsa necessitarem crescimentos exponenciais para valorizar a vida dos acionistas (mas mais especialmente os traders que ganham nas oscilações e não no longo prazo).

  3. Ken says:

    Acho que concordo com a maior parte do pensamento que você expôs, Marcelo, mas confesso que rolou um gosto meio amargo ao final.

    Talvez porque, citando Dadá Maravilha, ele trate mais da “problemática” que da “solucionática”.

    Ou talvez porque parte dele soe, para mim, meio “naïve”, ao parecer ignorar que a gestão empresarial é apenas a ponta de uma cadeia que começa na lógica das bolsas de valores.

    Ou, vai ver, é só angústia mesmo. :-)

  4. Marcelão says:

    Ken,

    concordo com você. É a lógica do retorno ao acionista em primeiro lugar. De certa forma, o texto tratou quando escrevi “O líder só teria que se preocupar se os resultados forem piores do que o esperado”. Reconheço que foi superficial, mas entendo que esse é uma das principais causas que induz o comportamento não ético nos colaboradores da empresa em todos os níveis.

    Aliás,

    o Ricardo Amaral escreveu muito bem quando fez menção preferencial aos traders e não aos investidores de longo prazo.

    Tem uma frase que eu gosto muito que é “Liberdade rima e vai bem com responsabilidade”

    Um abraço e valeu pelo comentário.

    “Keep the faith”

  5. Fernando Cruz says:

    Essa postura de resultados a qualquer preço vem sendo praticada há muito por várias grandes empresas. A questão da postura anti-ética em busca de resultados cada vez mais irreais não é decorrente da crise, mas sim foi fator deteminante para a crise. Recentemente, Samuelson tratou desse ponto em um artigo na Businness Week (se não me engano). Além das questões éticas, estamos enfrentando um sem-fim de problemas de relacionamento profissional, questões psicológicas e de stress, tudo em decorrência do modelo que estamos praticando hoje. A solução não é trivial, pois passa por uma mudança global em relação ao ritmo dos negócios e estabelecimento de metas reais. De fato, é um círculo vicioso: eu, quando cliente, pratico quase uma extorsão quando negocio com meus fornecedores. Quando sou fornecedor, sou extorquido pelos meus clientes. Tudo isso gera um nível de tensão que desperta toda sorte de coisas ruins, dentro do negócio via atitudes anti-éticas com citou o Marcelo, até o fomento de todos os maiores males pessoais desse século (ansiedade, depressão, isolamento, desmotivação, etc,).

  6. Confesso que fiquei perplexo com o post. Como assim “ensinar valores e ética”?

    Não tenho a pretensão de entrar numa discussão tão sábia, mas eu acho q “ensinar” essas coisas na faculdade, é uma batalha perdida.

  7. Eu acho o conceito bom, mas concordo com as criticas, acho que é apenas jogar perfume no cocô.

    O que adianta tentar ensinar ética para um marmanjo que esta se formando? E mais, é muita pretensão achar que a academia tem a admiracao dos alunos a ponto de convencer alguem sobre este assunto.

    Acho a sugestao de caçar diplomas utópica e pouco efetiva. As leis americanas mudaram, agora tem até cadeia pra quem faz merda. E ainda assim, o problema nao se resolve.

    Acho que seria mais pratico se a faculdade ajudasse a criar fórmulas, modelos e índices que permitissem aos boards, criarem métricas de performance de longo prazo.

    Ainda assim, acho que este é o assunto mais importante atualmente e por isso acho louvável e fico feliz com a iniciativa.

  8. Oi Marcelo, de qualquer maneira sabemos que para efetuar qualquer mudança temos que estar dentro do trem do capitalismo, nas empresas, atuantes nesse sentido, de melhorar os padrões / condições para o desenvolvimento efetivo do negócio, efetivo no sentido de sustentável, viável e mais igualitário.
    mas penso tbm que isso é reflexo de muito tempo educando as pessoas na cultura do 2º colocado ser o primeiro dos últimos. E tbm na cultura do [hiper] consumo.
    E mudar isso leva tempo, muito mais do que nós poderemos aproveitar. E isso de maneira alguma deve se tornar um impeditivo para a mudança, pois ela é mais que necessária.
    E assim a revisão não tem que ser apenas na gestão empresarial, mas na sociedade como um todo. Pois é muito fácil reclamar do senador que rouba, mas é muito difícil assumir que fazemos exatamente o mesmo ao “molhar a mão de um guarda”, ou colar numa prova.
    Sim, tem uma distância abissal entre os atos, mas na essência é a mesma coisa.

  9. José Lucas says:

    Cava, dizer que é possivel encerrar a discussão sobre o que é ética (ou qual a ética certa), e aferir se qualquer conduta empresarial está “fora”, ou “dentro” é cometer o mesmo erro de achar que é possível criar um Código de Ètica que resolva esse problema. Esse caso é o da clássica falácia de se confundir ética com regramento, normas, um código. A ética, de fato, é uma discussão, como comentárias a um post, sempre em aberto. Pauta em parlamento que nunca para de tergiversar.

    Falar que precisamos “revisar os métodos empresariais” para tutelar “transparência, integridade, colaboração e sustentabilidade” como valores é a mesma demagogia de criar o ECA e achar que vai no dia seguinte vai pipocar escola e que nenuma criança vai passar fome. Uma nova regra não reprograma a realidade só por ser escrita em algum lugar.

    “Criar sistemas de mensuração do desempenho mais holísticos” como disse o autor, ou “criar fórmulas, modelos e índices que permitissem aos boards, criarem métricas de performance de longo prazo” como disse você, é exatamente a mesma coisa. É o mesmo jeito, método, modus operandi, que vem se tomando hoje, só que apontando em outra direção.

    O Zé Lucas do passado, que não mais habita esse corpo, te diria que a única forma de atenuar essa dormência seria os tais “colaboradores” começarem a dizer “não” toda vez que são demandados a fazer algo que julgam, segunda sua própria moral, de natureza questionável. Mas o Zé de hoje tem certeza que nenhuma empresa está disposta a estimular insubordinação nos seus subalternos. Noutra banda, todo mundo está anestesiado demais, esperando a hora do chuveiro da Mulher Samambaia no “A Fazenda”, ou com medo demais de abrir a boca ao patrão. O anestesiado tem a paz a perder, e o medroso preferiu trocar a paz pelo salário.

  10. Gustavo says:

    Interessantes os aspectos comentados pelo Marcelo. Obviamente, nenhum modelo de negócio encontra base de sustentação em fraudes e más práticas em geral. Não no longo prazo. Cedo ou tarde entram em colapso, e tem de devolver todo o valor artificialmente criado até então. Apesar de concordar com o conceito de que valores éticos devem ser incorporados muito antes de chegarmos à Faculdade, creio que há um “caminho do meio” em que as questões éticas podem sim, ocupar espaço em Universidades, MBAs e afins: mostrar da maneira mais realista possível, o estrago gerado na vida de um executivo (e sua família) que se deixou seduzir pelo bônus, ou amedrontar pela ameaça de desemprego ao não atingir suas metas, e acabou por adotar uma moral “flexível”. Curiosamente, no nosso dia a dia, lemos a respeito das consequencias nos jornais, mas as tratamos como se habitassem um mundo distante do nosso.

  11. Mais do que se ensinar na escola, ética é uma coisa socialmente construída. Ela se forma, ou deforma, no dia-a-dia.

    E é no dia-a-dia que os comportamentos vão construindo valores nas mentes e nos corações.

    Faz todo sentido (lógico, não ético) que a gestão se construa sobre prêmios por desempenho de curto prazo. Afinal, temos sidos bombardeamos pela cultura que nos faz crer que valemos pelo que temos e não pelo que somos, portanto precisamos ter cada vez mais, e mais rápido, caso contrário o vizinho vai ter aquele novo gadget antes da gente, e viramos seres sub-humanos.

    Outro “valor” bastante difundido é de que os fins justificam os meios. Vivemos na sociedade do vale tudo.

    Tristes tempos, mas não vai ser a formação acadêmica que vai mudar isso.

  12. Michel says:

    A ética está na formação do caráter da pessoa, não vai ser uma faculdade que vai ensinar um cidadão a como se portar.

  13. Apesar de concordar com voces, ainda acho que a faculdade tem seu papel sim, pode e deveria fazer algo.

  14. Pedro says:

    Se o cara é pilantra aos 20, não é a faculdade que vai torná-lo ético.

    Os caras do Goldman Sachs daqui a pouco receberão polpudos bônus, como se nada tivesse acontecido no último ano. Se nem a maior das crises até aqui foi capaz de dar alguma lição, é tolice acreditar que isso virá dos professores.

    A verdade é que Harvard e outras faculdades não têm muito o que fazer no campo ético. Acho mais válida o mea culpa da professora Shoshana Zubbov, também de harvard, ao questionar o foco excessivo no valor para o acionista, quando sabemos que esta está longe de ser a melhor métrica para avaliar uma empresa.

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