Eu sou do tempo em que o professor de marketing na faculdade, depois de recitar o Kotler de cabo a rabo, dizia para gente que toda aquela teoria era muito boa mas, se não encostássemos a barriga no balcão, nunca conseguiríamos entender a respeito do que o guru dos marketeiros estava falando. Pior, nos tornaríamos apenas um bando de burocratas redigindo briefings imaginários para falar com um mercado que não existia.
Como eu sempre fui um bom aluno, segui as recomendações do professor. Toda vez que preciso entender melhor um produto ou mercado vou atrás de uma experiência pessoal com eles.
Já me fiz de vendedor de loja, de operador de central de atendimento, de auxiliar de vendedor de empresas que trabalham no business-to-business. Literalmente encostei a barriga no balcão, o que não é muito difícil pois, no meu caso, a barriga é grande.
Dentro do possível experimentei todos os produtos que eu, de uma maneira ou de outra, era responsável por vender. Quando isso não era possível (não era meu perfil comprar suprimentos odontológicos, nem nunca tive pendor para usar alguns produtos femininos) fui atrás de pessoas que fossem consumidores para entender melhor a relação deles com a marca.
Lojas continuam existindo. Vendedores continuam visitando clientes. As centrais de atendimento são obrigatórias. Só que agora temos mais um grande balcão que é o mundo virtual e não é possível que pessoas que se dizem profissionais da web 2.0 não façam a menor idéia do que estão falando, porque não são frequentadores desse mundo.
Mas essa é a realidade.
Ouço gente dizendo que não vai para o Orkut porque é brega (já ouvi as mesmas alegações sobre o YouTube, sobre os fotoblogs, sobre o MSN…), que o Twitter é coisa de nerd, que o Facebook é coisa de mauricinhos e patricinhas. Gente que não lê blogs alegando que não tem credibilidade (como se a mídia oficial fosse um padrão de imparcialidade e credibilidade) ou que não tem tempo (como se as pessoas que estão lá tivessem um dia com mais horas), que não participam de grupos e fórums de discussão porque tem gente muito estúpida em todos eles (claro, quem chama os outros de estúpidos são sempre sujeitos geniais).
Claro que existem modas virtuais que chegam e se vão rapidamente, como foi o caso do Second Life, quase destruído por aqueles que não faziam a menor idéia do que se tratava e tentaram transformá-lo numa cópia fiel da First Life. Não perceberam que as pessoas que criavam seu avatares queriam tudo, menos a vida real.
Justamente por não entenderem os milhões de pessoas que estão nos sites de relacionamento, nos grupos, nos blogs é que os marketeiros de escrivaninha continuam cometendo absurdos como pedir orçamento de um full banner em 4×4 cores (sim, eu já li isso e não era brincadeira de quem pediu). Continuam achando que mundo digital é fazer e-mail marketing, não perceberam que os consumidores mais jovens não usam mais e-mail. Continuam acreditando que número de page views é a única métrica da Internet (afinal, é tão fácil de entender quanto os relatórios de audiência do Ibope ou os números do IVC).
São marketeiros que acreditam que a vida digital é apenas uma tendência que vai se concretizar (ou não, a esperança de muitos) num futuro remoto quando eles já estiverem aposentados. Adoram assistir palestras futuristas, desde que não precisem participar dessas “mudernidades”.
Enquanto isso, quem vai para o balcão da lojinha e entende o funcionamento das ferramentas e o comportamento dos consumidores que as utilizam começa a faturar
Usando uma metáfora bem analógica, para que esses meus leitores me entendam, o trator da história já está passando sobre as suas cabeças. E ele não vai dar marcha-ré para salvar a sua cabeça.
E não vai dar nem para largar a carreira de marketeiro e ir fazer artesanato. Quem faz artesanato
19 comentários
Comentários em blogs:
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Pingback on Jul 11th, 2009
[...] este post do Coxa-Creme, é botar a barriga no balcão, entender o consumidor, e vender o produto, de verdade. E juro a [...]
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“consumidores mais jovens não usam mais e-mail”
Eu tenho a impressão que ainda não usam, vejo pela minha filha de 15 anos e seus amigos que têm certa resistência ao e-mail.
email é coisa de velho
Outro dia, antes de uma palestra com o Alexandre, diretor de arte de Bolt Brasil, eu conversava com um brother e a nossa constatação era: “O negócio vai ser estrapolar os limites da web e fazer a ação ir pra ruas”. Me parece que é melhor colocar a estratégia web na concepção de cada projeto. Enfim, vou tomar umas porque, afinal de contas, hoje é sábado. Bacana o post. Texto simples e direto. Obrigado.
Em tempo: Já somos 62 milhoes de brasileiros acessando.
A publicidade online cresceu 44%. A impressa não cresce, só cai. TV também está caindo. Se você não estiver aqui, não estará em canto algum.
Abraço.
Você disse tudo!
Posso apenas completar com uma experiência:
Computador “não morde” !
Acho que há lugar para tudo…Afinal temos cinco sentidos para que????
Vamos aproveitar a visão, olfato, tato, audição e degustar tudo junto!!!!
Cada meio/midia tem seu encanto e possibilidades!!!!
bj
Posso citar/linkar este post no blog da minha empresa sobre TI???
Está simplesmente perfeito!!!
Bjo!
Bel, pode até copiar o texto se quiser. É só fazer referência.
Excelente e realista texto, meu caro Fábio! Muito bom. Irei referenciar.
Forte abraço!
Ricardo Cavallini, pelo que vejo por aí chegaram a conclusão que os jovens acham o email muito devagar…. por isso tanta gente falando sobre “real-time” nas ferramentas. A apresentação do Google Wave por exemplo fala bastante sobre “substituir o email”.
Só sei que lendo isso lembrei de uma timeline de coisas que vão entrar em extinção até 2050:
http://img137.imageshack.us/img137/9691/extinctiontimeline2os4.jpg
No gráfico o email morre em 2012
Dine, é muito formal e pouco prático também.
Pra mim o cliente é a alma do negócio.
Por isso, sempre achei importante ser cliente das empresas que atendi.
Não pra dar uma de puxa saco, mas pra ter propriedade no que estou repassando pra galera da agência e para defender, também como cliente, um planejamento ou criação.
E planejar é o máximo! Nós “cliente-agência” que estamos, de certa forma, “fora do problema” podemos olhar pra ele de forma estratégica e sugerir uma ação ou plano mais realista.
Acho importante encostar a barriga dos dois lados do balcão.
Olá Fábio,
O texto é excelente, você me autoriza a publicar no Admit.com.br com os devidos créditos?
Sensacional o post.. precisamos entender de pessoas… decifrar números pra tornar isso útil pra elas.. vou acompanhar seu blog mais vezes.
Discordo que os mais jovens não utilizam e-mail.
Para comentar no seu blog é obrigatório mencionar o e-mail, é um exemplo bem claro de que todos o utilizam!
E tem mais:
“Me avise por email sobre novos comentários neste post.”
“Para receber email sobre novos comentários sem precisar comentar:”
O e-mail pode ter sido parcialmente substituido pelos jovens que o utilizavam para combinar coisas informais, bater papo com os amigos, contar novidades, pois agora eles tem outras ferramentas que facilitam esse tipo de comunicação.
Mas para algumas ações ele é insubstituível.
Agora os jovens enviam currículos para as empresas via Twitter, Orkut, MSN?
Ok, eles podem se cadastrar em sites de emprego. Mas para se cadastrar no site será obrigatório ter um e-mail, as vagas relacionadas ao seu perfil serão enviadas no seu e-mail e se você esquecer sua senha, será enviada ao seu e-mail.
Quando alguém responde o seu tópico em um fórum, chega um alerta informando onde? No e-mail!
Se alguém te deixa um recado, depoimento, comentário, no seu Orkut, FaceBook, Blog?
São poucas as pessoas que não acompanham o próprio e-mail ao menos 1 vez ao dia, jovens ou velhos.
Eu enconsto a barriga no balcão quando o assunto é E-mail Marketing e em nossas bases, todas as campanhas com foco no público jovem tem um ótimo resultado, bem acima da média.
Ah! Concordo com todo os outros itens do post!
Um abraço!
Adoro as ilustrações do Coxa Creme! O desse post ficou demais!
Estevão
Citando a fonte, todos os meus textos podem ser replicados em outros espaços analógicos e/ou virtuais
Fábio Adiron,
Ok Fábio, muito obrigado
Fábio,
Bacana o post.
Acrescento.
Tempos atrás, havia quem duvidasse da aderência em massa ao uso de computadores pessoais. Hoje, quem não tem paga para usar. E quem não usa ficou a margem.
Pior que ignorar novos meios é ignorar mudanças de comportamento.
Boa sorte e sucesso nos futuros posts.