A Internet é um convento cheio de putas


No início, ninguém dava muita bola para o que saia na Internet, para o que se falava nos seus inescrutáveis meandros. Era uma molecada que brincava de ser jornalista, publicitário, comediante, cineasta.

A confusão está apenas começando.

A Internet é um megafone

clique para ampliarToda confusão começa com uma boa intenção. A boa intenção de falar a verdade, de ser franco, de ser uma bandeira de oprimidos, incompreendidos. Mas toda causa tem um efeito. Falar o que se quer e bem se entende sempre dá confusão. E falar num megafone como a Internet, mais ainda. E o que era apenas um suspiro de frente para o espelho vira um manifesto público multiplicado ao infinito e sem controle. A vida é assim – e não só na Internet: quem te apoia avisa. Quem não te apoia se vinga sem avisar.

Pra abrir o bico, tem que ter peito

Portanto, não adianta muito bancar o jovem imaculado descobrindo o mundo cruel, o artista inspirado no seu mundo cercado de virtualidades. O mundo não é um aquário cheio de peixes Nemo. Todo mundo tem ideias e, pior, interesses próprios. A inveja é a nossa gasolina. A Internet não é diferente de nada. Ainda que ela possa parecer livre de leis – e em larga medida é – não é livre de gentes, de pessoas. E pessoas podem ser muito mais repressoras do que a mais repressora das leis.

Quinze reais de fama

A imensa possibilidade de liberdade de expressão que a Internet proporciona está na raiz utópica do sucesso dos blogs e que tais. E, por detrás dessa sede de oratória e autoria, tem a vontade de ser visto. E, por detrás da vontade de ser visto, tem a fama e uns trocos.

Mas a confusão começa quando pingam os primeiros dinheiros. Ganhar dinheiro não é tão fácil quanto parece. Não basta dizer coisas inteligentes ou fazer macacadas. Se tem dinheiro envolvido, tem regras e leis e – queiramos ou não – elas devem ser seguidas. Podem espernear, fazer campanhas, mas pintou dinheiro, pintou confusão. Esse povo tão “liberal”, tão “paz e amor” vai se chatear.

Dinheiro e espontaneidade não ornam

E a maior confusão se arma então, quando tudo fica de pernas para o ar.

Os produtores de conteúdo, os da grande mídia, acham que essa “garotada da Internet” pode dar uma renovada. Aí a molecada vai para a grande mídia com aquela farta experiência dos seus blogs e views no YouTube. Se os brothers curtem, a Dona Maria vai curtir.

As agências de propaganda, sedentas de novidades, transferem a presumida liberdade de expressão da Web para a TV. Ao invés de comprar mídia, dá-se uma ajuda de custo àqueles que irão disseminar a mensagem. Uma espécie de suborno à legitimidade.

E as marcas, elas também, começam a achar que o que liga não é fazer propaganda, mas uma espécie de brand content ou qualquer outro anglicismo bacaninha. Tipo Merchandising 2.0

Os heróis dos blogs, porém, começam a ganhar dinheiro das marcas através de suas agências de propaganda. E o dinheiro estraga tudo.

Estraga o conteúdo, que por sua vez estraga a criação publicitária, que estraga a marca. E qualquer estrago é caro, mesmo que tenha custado três tostões.

Nota do editor: Este texto foi chupinhado do blog do Fernand Alphen, que apesar de novo, está recheado de ótimos textos. Eu recomendo.

Ah, e nem pedi autorização para isso, pois seu blog é CC e conhecendo o autor, ele não teria a menor frescura com isso.

Fernand Alphen é diretor de Planejamento da F/Nazca Saatchi & Saatchi.

4 comentários

  1. Ótimo texto. Assino embaixo. A turma criou cobra no quintal, deu tiro no pé. É bom ler essa explanação via F/Nazca, em tempos de falta total de ética, criatividade e profissionalismo acalma um pouco a nossa indignação.

  2. Sheyna says:

    Gostei muito do que li por aqui.

    Eu sei que existe e muito mas ainda não peguei o fio da meada…não sei ao certo como funciona isso de pagarem para blogueiros falarem, mas com certeza, a responsabilidade que estão jogando nas mídias sociais e seu entornos…sei não. É legal, interessante, mas percebe uma banalização das coisas? Se comuicar é legal, MSN, Orkut, tudo é legal, e vc passa infos sim de um para o outro…Mas daí, fazer do cara que faz um vídeo pro youtube, de funk, ou zoeiras mil… um expert… O cara da onda… Me dá pena do que vem por aí kkk

    Passa no meu blog se quiser…

    abraço!

  3. André Domok says:

    Esse é um resumo da história da internet, mais existe um deja-vú nisso.

    Na história do rock'n'roll a garotada era culta, musical. Quando começaram a ganhar dinheiro, tivemos astros assassinados, overdoses. Uma idéia brilhante transformou-se enfim em um fato que mudou o mundo inteiro e enfim ficou simplesmente obsoleto.

    Embora essa seja só uma comparação, pois não acredito na obsolescência da internet, não podemos fazer nada contra o sistema. Resta-nos prever quando essa onda 2.0 vai ganhar um novo estágio.

  4. [...] republica um ótimo texto de Fernando Alphen, deveras xiita, sobre o que rola na internet. Em A Internet é um Convento cheio de putas, o autor manda bem: para abrir o bico tem que ter peito. Tem outra: dinheiro e espontaneidade não [...]

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