Eu insisto. Blogueiro não é raça, nem credo, nem espécime. Blog é ferramenta. Até brinquei citando perfis bem diferentes. Disse que tem o blog do presidente da GM americana e o blog do adolescente do interior de SP. Tem o blog do Paulo Coelho que faz chover e da Bruna surfistinha que faz gemer.
Dada esta introdução, quero defender que parte da polêmica gerada em casos envolvendo “blogueiros” vem da dificuldade para aceitar a mudança cultural que esta e outras ferramentas estão provocando.
Já vimos isso antes, várias vezes, inclusive fora da web. A tecnologia muda o comportamento, desde o tempo da descoberta do fogo.
As câmeras fotográficas digitais são um bom exemplo. Há uma década atrás, quem andasse com uma no bolso seria jornalista, fotógrafo amador ou turista.
Hoje qualquer pessoa sai com uma na rua. E na prática, todo mundo tem uma no celular. Tiramos foto de tudo e de todos. Porque é fácil, barato, rápido, indolor. Antes apenas alguns assuntos bem específicos mereciam a atenção da câmera. Agora qualquer porcaria vale. Não gostou, apaga. Não ficou bom, não manda imprimir. Um show de fartura que antes seria considerado desperdício e estupidez. O produto final, a foto, continua importante, mas o ato de fotografar deixou de ser.
O interessante disso tudo é que, uma inútil e despretensiosa foto, que poderia não ser tirada na época analógica, pode acabar se tornando a mais bonita e valiosa de todas.
Voltando aos blogs, pela facilidade e abrangência de público (blogueiros e leitores), a facilidade da ferramenta transformou a publicação de textos em algo prático e informal. Com aquele mesmo tom e volume de uma discussão de amigos em uma mesa de bar.
A maneira como a informação é colocada e discutida é muito diferente e isso passa a impressão do que alguns chamaram de síndrome de motoboy. Mas isso apenas mostra a dificuldade de entender essa mudança cultural.
Assim como a foto, um despretensioso post do blogueiro desconhecido pode acabar tendo mais impacto que a coluna do jornalista mais importante no veículo mais poderoso. O que não podemos esquecer, é que na maioria das vezes, um post será apenas isso: um post. O produto final, a opinião, continua importante, mas o ato de publicar algo deixou de ser.
Se você falar mal de algum assunto que toque estas pessoas, eles irão comentar porque estão a vontade em sua mesa de bar. Se chegar no bar e gritar que acabou a cerveja, muitas mesas irão chiar. Uma delas pode ter um mafioso armado. Mas nem sempre este movimento é orquestrado, nem sempre é em prol de uma classe, o que não quer dizer que uma mesa não tome coragem com a atitude da outra.
Os vários jornalistas tradicionais que tem blog acabam mudando sua maneira de trabalhar. Não significa mudar sua postura ética, moral ou preocupações profissionais. Mas no boteco, o tom da conversa é outro.
Nenhuma mudança cultural é simples. Muitos têm dificuldade para entendê-la. Já outros, preferem morrer sem aceitá-la. Se você não concorda, desencana, isso aqui é apenas um post.
36 comentários
Comentários em blogs:
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Pingback on Jul 26th, 2008
[...] Este post foi motivado por este post do Coxa Creme que diz que os blogs são ferramentas de tecnologia e não ferramentas de opinião, ou se preferir, [...]
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Pingback on Jul 27th, 2008
[...] Cavallini sobre blogs, muito bom… leitura obrigatória, encontrado no GReader [update] [...]
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Pingback on Aug 8th, 2008
[...] só mesmo o post tão bem escrito por Ricardo Cavallini que gerou uma conversa com Fábio Buchecha foi o que me trouxe luz para minha conclusão tão [...]

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Isso não é apenas um post, é um excelente post.
concordo contigo Cavallini.
Os desenhos do Braga sao a melhor parte do seu blog Cava. Este em particular
Boa! mando bem…
Realmente existe isso uma preocupação desnecessária com isso. “Há muito blogs no mercado”, somente os blogs bons continuaram durando, então qual é o problema?
Belo post Cavallini!
Fabricio, por isso que eles custam uma pequena fortuna
Uma das minhas maiores frustracoes foi nao ter comprado o Braga no mercado de escravos brancos do interior antes dele fazer sucesso no mundo da publicidade.
É isso aí rapaziada…
Tem muito professor de Ciência Socias que se perde na verborragia pra explicar um conceito que o Cavallini dissecou em poucas linhas: a dialética.
Muito bom pra quem se diz NADA ACADÊMICO!
Não tenho vergonha de dizer o quanto admiro os textos do Cavallini. Enquanto registro de algo, hoje os posts já são sim “apenas” post. No entanto, o movimento gerado na comunidade virtual em torno de determinado assunto após o post, este sim é um fenômeno social que dificilmente poderá ser visto de forma tão superficial.
Apesar da dialética já não ser um conceito tão recente, vê-lo se disseminar pelo mundo digital é acompanhar a importância das mídias sociais no mundo contemporâneo e como estas vieram pra ficar.
Concordo sim. É parte da cultura de achismos, todo mundo acha alguma coisa, tem opinião para alguma coisa, tem muito nó cego que replica “achismos” sem base, outros nós cegos que acreditam e outros não são nó cegos…
Os Blogueiros são , no meu achismo, formadores de opinião (temos aí diversos níveis), quem lê é pq compartilha da mesma ou pq verificou que a informação é real e proveitosa. Quem não sabe separar, é nó cego (eu acho).
Portanto, acredito que quanto mais seu nível de formador de opinião for razoável, vc tem mais responsabilidade pelo que vc escreve.
As pessoas são mais livres qdo anônimas pois elas fazem menos o mal, ou, menos o bem, do que qdo tem alguma gama de seguidores.
Tudo tem sua fase de adaptação.
Gustavo, obrigado
eu ja admirei muita coisa minha que depois passei a ter vergonha, hehe
E tambem ja tive vergonha de muita coisa que hoje teria orgulho, tipo o tamanho da minha barriga 10 anos atras
bom post.
“O produto final, a foto, continua importante, mas o ato de fotografar deixou de ser.”
Fazendo o paralelo, se vc escrever um rascunho num papel e jogar fora, ok. É igual a foto que vc deletou. Se vc resolver passar do papel para um post em seu blog, a meu ver, virou o produto final, que é a opinião. E a opinião, mais do que nunca, é importante.
Antes, eu não te conhecia, e sua opinião não valia nada para mim.
Hoje, eu não te conheço, mas leio e gosto do seu blog e conheço muita gente que também lê e gosta, e sua opinião passou a ser importante pra mim.
Acredite se quiser, mas se vc fizer um post dizendo que usou o xampu tal e gostou, será mais importante para mim do que a Gisele Bundchen dizendo o mesmo no comercial de pantene, apesar de eu preferir o cabelo dela. Só espero que o post sobre o xampu não tenha sido pago.
abs, Gfortes
Gfortes, a prova final sera o proximo post. Ou vc passa a me amar ou a me odiar. Aguarde.
Dizer que o ato de publicar deixou de ser importante é algo muito forte, principalmente no atual momento em que você ouve por todos os lados que tem que valorizar a individualidade.
Como medir a importância que eu dou ao publicar algo?
Fábio, postar esse comentario foi importante pra voce?
PUTZ! vou “desassinar” vc por um tempo, depois eu volto ; ) abs, Gfortes
Bastante. De que outro modo você ia saber que eu não concordo inteiramente?
Fábio, pra mim também, seu comentário foi muito importante
O ponto é que é tao facil postar que podemos postar coisas sem relevancia. Veja o caso do Twitter. Ele pode ser usado para fins praticos mas é tao facil que na maioria das vezes é completamente irrelevante. Isso nao tira a importancia da mudanca cultural, que é exatamente sobre o que me refiro acima.
os desenhos do braga são mesmo espetaculares
Reli duas vezes e entendo seu ponto de vista. Confesso até que fiquei deprimido de quando caiu a ficha de que sou marginalizado por causa de um pessoal de cabeça de alfinete
Fábio, nao tem marginalizacao. Voce esta levando no pessoal. O fato de postar perder a importancia nao quer dizer que seus posts nao sejam relevantes.
Se postar perdeu a importância, por extensão o produtor do post também deixa de ser importante. Quando eu falo de marginalização me refiro a isso.
E não, não levei para o pessoal
Só achei que foi um passo muito arriscado dizer que o ato de publicar perdeu a importância. Sim, entendo que o processo produtivo se banalizou e foi isso que você disse que eu não entendi na primeira leitura.
Acredite, não levei para o pessoal.
Na mosca Cavallini.
Duro mesmo é saber que demorei dois dias pra achar o post no GReader porque gosto tanto deste volume gigante de informação que acabo atrasando a leitura.
À espera do próximo
bj
Fábio, se o ato de postar que validasse a importancia do autor, o numero de posts seria um otimo parametro para fazer um ranking dos melhores blogueiros.
Eu fiz 223 posts neste blog e 420 no wishlist.nu
que lugar do ranking sera que eu fico?
hummm, pera, alguns dos posts de outros autores foram enviados pro email e eu que subi aqui no blog. Preciso somar estes pontos tambem.
O ato de postar coisas relevantes valida sim a importância do autor. O parâmetro correto seria o propósito dos posts, não a quantidade.
Desses seus 600 e poucos posts, quantos são, digamos, banais? Acredito que poucos. Eu posso ver através da repercussão dos comentários que seu conteúdo é sim de muita relevância e isso você só conseguiu depois de muito postar, ou estou enganado?
O ato de você postar é muito importante para cada leitor que você conquistou, mas se o produto final for ruim tenho certeza que os leitores sensatos vão saber apontar.
Acredito que nada perdeu a importância com essa mudança cultural. Penso justamente ao contrário: tudo se tornou importante. Os cuidados e responsabilidades que temos que ter ao produzir são agora muito maiores, visto que em se tratando de internet, o feedback é imediato.
vc continua nao entendendo nada.
é apenas um post, por isso, desisto de tentar explicar
Tentei falar a mesma coisa. Deveria ter deixado umas semanas passarem para produzir um texto minimamente comparável ao seu. =)
Sabe que, se continuar escrevendo desse jeito, você vai acabar virando um bom blogueiro…KKKKK
a post is a post is a post… já diria Gertrude Stein…ou seria outra coisa ?
http://en.wikipedia.org/wiki/Rose_is_a_rose_is_a_rose_is_a_rose
Fábio, uma coisa é uma coisa, outra coisa é outra coisa.
Me diverti bastante com a discussão do fábio e do Cavallini.
Os blogueiros (e seus frequentadores) são onanistas com complexo de Justus.
Cava
Para o webometrics….quantidade é indicador de qualidade… “A metodologia do ranking considera as análises quantitativas de conteúdos disponibilizados na internet…”
Ou seja, a USP é um grande blogueiro, ou será apenas um grande bordel ?
USP está entre as 200 melhores universidades do mundo.
É, mas não dá pra cair num determinismo tecnológico. O que acontece - segundo alguns autores bem conceituados, como Heidegger, entre outros - é que desde o final do séc. XVII se elegeu a máquina como objetivo do mundo, como referência de perfeição e de superação da condição humana.
Desde então, há uma continua confusão que parece não compreender que a técnica - como o blogar - é, essencialmente, uma coisa não técnica. Batemos o martelo no prego porque queremos e não simplesmente porque existe o prego e existe o martelo. Há algo de nietzscheano nessa discussão e algo muito alarmante quando blogar se torna referência de individualidade e de personalidade…
Concordo contigo. Os blogs estão aí para tornar o acesso à informação mais demacrático. No mundo dos nichos, todo mundo tem acesso a todo tipo de informação, e escolhe o que melhor se amolda em seu perfil. Escolher a melhor opn~ião, sem todo o sensacionalismo da TV e coisas do tipo.
Em blogs, não há máscaras, você tem ao seu acesso toda a informação, diversos ãngulos. Só resiste nesse mundo virtual quem realmente tem conteúdo. E desencana, esse é apenas uma comentário.
Alleu,
All3X
Nossa,
Que delícia de post!
E a redação então?
Um verdadeiro espetáculo.
Voltarei em breve