Uma das boas crônicas do Luís Fernando Veríssimo é uma em que conta sobre um personagem, já não muito novo, que tem duas turmas. A turma “em pé” e a turma “sentada”. A primeira é a dos colegas da mesma idade que, nos últimos tempos só se encontram em velórios e enterros (em pé). A outra é a de jovens com quem ele vai a bares, beber e papear (sentado).

Cada dia que passa tenho ficado mais impressionado com o distanciamento dos profissionais de marketing dos meios digitais. Sei que essa afirmação pode lhe soar estranha uma vez que esses mesmos profissionais geralmente são extremamente antenados com as novidades do mundo.

Não é verdade. Com exceção dos meus colegas que foram gerados profissionalmente dentro de computadores, quase todos os demais parecem estar cada vez mais longe do mundo dos bits e dos bytes, ainda que seus discursos sejam “muderninhos” e seus smartphones tenham tecnologia 3G.


Eu escrevo vários blogs, participo de cerca de duas dezenas de grupos de discussão na Internet, estou em algumas redes sociais. Os públicos, tanto dos blogs quanto dos grupos e comunidades, são bastante variados: professores (que, tradicionalmente, são pouco dados a computadores), pessoas com deficiência, pais, amigos das mais diversas profissões e, claro, marketeiros. Surpreendentemente são justamente estes últimos que menos interagem digitalmente.

Percebo isso também nos meus contatos pessoais. Em encontros, nas classes que dou aula, em reuniões. As pessoas alegam não ter tempo de ler os boletins online, poucos freqüentam lojas virtuais (quanto mais comprar nas mesmas, temendo que algum hacker clone seus cartões…) e se recusam a participar de sites de relacionamento (acham isso tudo muito popular, coisa de ralé).

Mas falam muito em convergência de mídias. Repetem que o futuro é digital. Carregam seus iPhones, compram máquinas fotográficas de 450 megapixels e alguns até usam o MSN para conversar com o colega da mesa ao lado. O que não significa que tenham deixado de ser analógicos nas suas interações.

Durante algum tempo atendi um cliente de uma empresa high-tech. Todos carregavam seus notebooks para baixo e para cima, em cada lugar se plugavam na rede. Mas cada vez que precisávamos conversar eles faziam questão de reuniões presenciais. Eram o modelo perfeito do profissional que se acha atual, mas não consegue se desvencilhar do passado.

Enquanto isso o resto do mundo interage remotamente. Já romperam a barreira do espaço e, cada vez menos o tempo é um fator restritivo – até porque os recursos digitais permitem que sejam multitarefas e mais coisas cabem dentro do mesmo período de tempo.

Eu admito que apesar de já ter passado pelo cartão perfurado, pelo PC-XT, pelas BBSs, ter lido Negroponte na Wired e o Manifesto Cluetrain logo que foi divulgado, ainda estou muito atrás da minha turma digital, mas, ao mesmo tempo, tenho mais megahertz de velocidade que a minha turma analógica.

Esses, se continuarem acreditando que só discurso os mantém, vão ser atropelados pelas webs 2.0, 2.1, 3.0… E não vão sequer perceber o que foi que passou por cima deles.

Fábio Adiron é Consultor em Marketing Direto e Database Marketing, coordenador do Curso de Especialização em Marketing Direto da ABEMD e mantém os blogs Espicaçando o Marketing, Mens insana in cor sano e Calvinistas, graças a Deus.


24 comentários

  1. 1 Alex Luna (reply)

    É, eu acho tão estranho escutar de amigos que trabalham em criação que não tem tempo de ver nenhuma página, não sabem o que está acontecendo no resto do mundo, mas conhecem decorados todos os anúncios impressos de todos os anuários.

    Dia desses eu tava escrevendo e reclamando sobre isso: tá na hora dessa maldita revolução digital chegar de uma vez, todo mundo virar 2.0 e pronto, isso de viver entre dois mundos é mega-complicado.

  2. 2 Fábio Adiron (reply)

    Errata : por favor, no primeiro parágrafo, onde se lê “da mesma idéia”, leia-se “da mesma idade”.

    Fábio

  3. 3 Ricardo Cavallini (reply)

    Ja arrumei no texto Adiron.

  4. 4 Fernando Cordeiro (reply)

    PS: Sorry o comentário gigante ok? =T

    Cara, pode parecer comentário cliche (espero q comentários em blogs nao tenham virado “commodity” ainda)…já tinha percebido algo assim, mas não tinha conseguído encaixar as coisas como vc o fez. Da pra acreditar?

    Assim, deixo aqui meu testemunho que acontece exatamente isso. Justamente as pessoas que se dizem ou deveriam estar “plugados” são os que menos o fazem.

    Os marketeiros deveriam estar a par do mercado web, da mesma forma q estão com os seus “mix de mkt” razos e no-sense. Mas não ver a web com o conhecimento de ferramentas (como os poucos que sabem, julgam), mas de como o mercado funciona, conhecimento de tendência.

    Faço uma MBA de Marketing na FGV – Bauru e da até tristeza conversar com os colegas no coffeebreak (em pé)…pois ai sim parece um velório! Quem morreu? A visão de negócios…

    Um exemplo? Um professor deu a ideia da turma abrir um blog pra turma, eu disse q seria besteira, pois ninguem ali teria tempo de atualizar, escrever materias e se fosse pra ficar no “controlC/controlV” seria melhor nem fazer.
    Propus o twitter e amaram a ideia. @mkt9fgv

    Curtas mensagens, atualizadas por mim o dia todo, material relevante para a área…e sabe o q eles me dizem?
    Que não tem tempo pra olhar…mas na aula estão com seus notebooks vendo UOL e Orkut…

    Como muito bem foi dito, a web vai passar por cima deles e quando derem conta, não saberão o que passou por cima e correr atras será bem desgastante.

    Enfim…

    Já ficou longo demais…sorry, só precisava de alguém pra conversar, hahaha.

    Cava, vou te aporrinhar no #Intercon08 =D~

  5. 5 Rubens (reply)

    Com certeza, a internet ainda é subestimada por muitos profissionais, principalmente os “marketeiros”, a internet está começando a ganhar credibilidade agora, a pouco tempo era totalmente marginalizada.
    Com isso grandes nomes apenas não querem nem saber, como acontece varios debates sobre isso no Braincast, as agências estão pensando em trabalhar com internet quase que agora, enquanto já existe agências especializadas em internet (o caso de onde eu trabalho).
    A verdade é que qualquer mídia pode acrescentar muita coisa a muitas pessoas, e com a internet esse fenômeno é bem mais rápido.

  6. 6 thiago a. oliveira (reply)

    sou estudante de adm e trabalho com mkt há dois anos numa multinacional, e ricardo, tudo isso é bem verdade. ainda olham as ferramentas digitais com essa percepção descrita.
    acredito que o cenário vai mudar quando concorrentes espertos (se alguém resolver se informar e investir nisso, claro) começarem a obter resultados e mostrar que a relação investimendo-retorno do mkt digital é muito vantajosa.
    a falta da informação chega mesmo a dar aquela vergonha alheia, e ainda tem o fato de que quando vc menciona algo do tipo numa reunião, ainda fazem aquele olhar “coisa de nerd”.

  7. 7 Rubens (reply)

    Verdade! eles vão acabar se acostumando, mas como o Ricardo disse, vai ser bem mais desgastante.
    Eu acho que a internet muito em breve será a mídia principal, isso poucos são contra, então por que a resistência?
    Os mais abtuados que saberem melhor usar as ferramentas e as informações da rede irão se sobre sair…
    Falo por mim mesmo, que faz uns quatro meses que tenho frequentado blogs, e buscado informações a mais, já criei uma rede de blogs para saciar minhas leituras e (como agora) minha vontade de falar coisas comuns xD.
    Mas voltando ao assunto, os blogs e a internet em geral me ajudou tanto, que eu criei uma paixão por ela, que quero aprender sobre webdesign, coisa que até final do ano passado nem pensava, por preconsceito. Uma pena. Melembro uma frase de uma amiga “se você quer a área de criação de publicidade, você não pode ter preconceito de nenhuma forma de cultura! ^^

  8. 8 Fábio Adiron (reply)

    Alex : a gente sempre vai viver em vários mundos, um modelo não susbtitui, obrigatoriamente os demais. A questão é justamente saber navegar em qualque tipo de mar – coisa que deveria ser a especialidade de profissionais de marketing.

    Fernando : a pseudo falta de tempo é a praga do século. Uma desculpa que as pessoas inventam e os demais fingem que acreditam. Quando algo é relevante, a gente sempre arruma tempo para fazer.

    Rubens : não sei se subestimada é a palavra certa, para muitas pessoas ela ainda é tão pouco conhecida que nem é possível subestimar.

    Thiago : quando os concorrentes espertos tiverem resultados muitos não vão ter mais tempo de correr atrás.

  9. 9 André (reply)

    Concordo com o Fábio e ouso ir um pouquinho mais além.

    Essa alienação não se limita só ao meio profissional, ela existe também no meio acadêmico. Mesmo entre a mulecada de vinte e poucos anos (ou a maioria esmagadora dela) que se diz super hype e antenada há muita relutância para aceitar novas ferramentas de comunicação diferentes do Orkut e MSN, por exemplo. E é muito triste saber que a maioria dos cursos superiores de Comunicação Social, Publicidade e Prtopaganda & Marketing pouco a contribuem para mudar essa mentalidade- salvo raríssimas exceções.

    Se vocês acham que os atuais profissionais da área têm dificuldades para se manter atualizados com as mudanças tecnológicas, imaginem então aqueles que são responsáveis pela formação dos profissionais de amanhã.

    Fica bem mais dificíl pensar em coisas novas quando só te ensinam coisas ultrapassadas…

  10. 10 Fábio Adiron (reply)

    André

    Com a velocidade de mudança da informação, mesmo que os professores estivem superatualizados, o que eles ensinassem no primeiro ano, não serviria mais no dia da formatura.

    Imagine só os que não estão

  11. 11 Ricardo Cavallini (reply)

    Acho facil e barato resolver isso se a faculdade tiver interesse real.

  12. 12 Rubens (reply)

    Fábio, Concordo sim, me equivoquei, porém há sim uma subemitação da internet…Mais claro que o desconhecimento é o principal fator. Quanto ao comentário de André, sim as faculdades tem que se atualizar, não no que se ensina, mas como se ensina…
    Quando o professor é bom o suficiente, ele te ensina o que sabe e te diz onde achar outras coisas, ter que criar interesse no aluno, sempre foi o desafio do educador, e sempre será. Não digo que a culpa é dos professores, mas ajudaria muito!

  13. 13 André Chapetta (reply)

    Fácil e barato como, Cava?

  14. 14 Ricardo Cavallini (reply)

    Basta ter bons professores, vontade e montar um programa pra isso. E quando falo sobre bons professores nao estou falando que eles precisam estar em dia. Isso se faria com o programa. Estou falando do basico, de professores que entendam de comunicacao, saibam ensinar e saibam aprender.

    Pode ate argumentar que bons professores sao raros, mas ai a discussao nao tem mais a ver com o assunto, seria um problema anterior.

    A verdade é que estas faculdades que vcs estao descrevendo nao estao preocupadas com isso. Entao nao é falta de solucao, é falta de vontade.

  15. 15 Alex Luna (reply)

    Concordo plenamente com o Cavallini nesse ponto.

    Não precisa que os professores de comunicação sejam experts em SEO, nem incluir essa disciplina no currículo, porque em 5 anos, talvez não seja uma ferramenta útil, mas é importante que eles incitem nos alunos a necessidade de estar sempre aprendendo, procurando e se informando mais.

    A faculdade de comunicação não vai te dar todo o conhecimento necessário, porque na nossa área isso é impossível. Ela pode te dar algumas ferramentas de orientação e o instinto de busca, porque, afinal, todo dia o trabalho da gente é diferente.

    Há alunos, e muitos professores, os ruins, que querem aprender a fazer anúncio e seguir fazendo-os desta maneira até o fim da carreira. Aprender as receitas. E daí em diante só repetir. Só que propaganda é como culinária: se você fizer feijão com arroz todo dia, nunca vai ganhar estrelas do guia michelin, e vai terminar enchendo o saco. A universidade tem que ensinar a perceber os distintos sabores. As combinações, só experiência e talento, que dependem de cada um.

  16. 16 Rubens (reply)

    Há falta de vontade por que “dá trabalho” hahahaha esse é o país em que vivemos.
    Ontem comecei um curso de flash, e o professor começou explicando as funções de cada liguagem, até que chegou no AJAX e RIA, quando foi falar do RIA mostrou exemplos e tudo o mais, realmente incrível, ai ele falou que não foi usado por nenhuma empresa do Brasil (pelo menos que ele saiba) e que uma vez trabalhadores do submarino falaram com ele que se interessaram muito no RIA e falaram com “O Cara” do submarino (sim, eu esqueci o cargo), meu instrutor disse que ficou todo animado e perguntou se iam usar, eles faram que não e explicaram que o chefe fez três perguntas.
    “Nosso sistema ainda esta funcionando?”
    “A gente vende?”
    “Então por que vocês querem mudar?”
    Concluindo, no Brasil falta visão! não só na área de web como na área de ensino…

  17. 17 Felipe Souza (reply)

    Boa Adiron,

    algo a ver com 90:9:1 Tio Jakozao!

  18. 18 Beto B> (reply)

    O professor tem que pertencer ao mercado. Ele é como todo profisisonal de propaganda, só que a noite ganha o dinheiro dele transferindo os conhecimentos adquiridos com o trabalho. O problema são os profissionais que passam a se dedicar apenas para a vida acadêmica. Tornam-se servidores públicos pois não competem com ninguém! É declarada morte dos líderes e o enfraquecimento do sistema!

    Meus amigos sentados são os velhos e bons de bar. Meus amigos de pé são os que jogam futebol, surfam, correm e saem pra dançar. Sim, saio pra dançar com meus amigos!

  19. 19 Ricardo Cavallini (reply)

    Olha, eu nao sou NADA academico e nao concordo. Acho que o mundo academico importante e mal explorado no brasil, principalmente na integracao com o mercado. Tambem é importante ter gente olhando pro mercado academicamente falando (longo prazo). Agora, concordo que isso é mal feito no brasil e portanto passa essa sensacao de inutilidade.

  20. 20 Beto B. (reply)

    Admito que meu comentário foi um tanto emocional, reflexo de um recém saído da faculdade e a muito tempo frustrado. Revendo, condordo, integração é um bom caminho, mas parece tão distante…Pelo menos pelo o que vivenciei, são tantos aspectos que não cabem para o momento, mas parto do princípio de que professor tem que ter diploma…por quê???

  21. 21 Rubens (reply)

    Beto B. bem colocado! Os professores esquecem que antes de ser professores tem que conhecerem a área de trabalho do curso que se dá aula.
    Aconteceu esse fato descarado comigo, eu faço publicidade e propaganda, e meu amigo quis brincar com a professora falando que queria trabalhar na África (claro que a agência) e a resposta obtida pela professora foi “então o que esta fazendo no Brasil?” (o pior foi ver que não era brincadeira, realmente suas feições eram serias e ela não entendeu nossas risadas..) Aí eu pergunto, como iremos aprender algo útil para o mercado profissional, se quem nos ensia não conhece esse mercado?

  22. 22 Fábio Adiron (reply)

    Caríssimos

    Sobre os paradoxos da teoria e da prática, publiquei hoje um texto em outro blog

    O ovo e a galinha da educação
    http://blog.disdeficiencia.net/2008/07/24/o-ovo-e-a-galinha-da-educacao/

    Não deixa de ser um bom debate em qualquer área de ensino

  23. 23 juliana barros araujo (reply)

    é verdade que nao temos tempo, é verdade também que não sabemos administrar nosso tempo e acho que as pessoas não sabem utilizar os meios digitais como ferramentas inteligentes. é um absurdo perdemos tempo lendo e deletando mais de 50 e-mails por dia e é impressionante que, para agendar um simples encontro com um grupo de pessoas, sejam necessárias mais de 30 interações por e-mail…e claro que ninguém se encontrou no final. depois disso pensei em criar um bolg, somente para informar o local do proximo encontro, e quem quiser que fosse, mas também não tive tempo de fazer…
    mas ainda farei!!!!

  24. 24 Ricardo Cavallini (reply)

    Olha, eu nao consigo concordar com a desculpa “falta de tempo”

    Se temos – na melhor das hipoteses – 24 horas por dia, poderiamos usar a desculpa do tempo para qualquer coisa.

    Não te dei bom dia porque faltou tempo. Andei pelado na rua porque faltou tempo de me vestir. Parece piada, mas é serio.

    É uma questão de escolha. Por exemplo, quem usa o tempo pra ficar com os filhos não pode usar a desculpa de falta de tempo. Nem deve dar desculpa. Foi uma escolha sua, uma opção.

    Quem não tem opção é bóia fria, gente que realmente não tem opção e que respira trabalho a cada segundo do seu dia.

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