Talvez este seja o texto mais chato do blog, mas ainda sim achei importante postar para explicar alguns conceitos e algumas diferenças do nosso mercado.
O básico todo mundo conhece. BV de um lado, hora/homem do outro. Fala-se muito sobre o impacto que isso gera na escolha das mídias (a tal falta de neutralidade), mas olhando melhor é possível descobrir outras conseqüências e características destes dois modelos. Apesar de não ser tecnicamente correto, resolvi chamá-los de gestão de receita e gestão de custos.
Gestão de receita.
Modelo mais comum em agências tradicionais, que detêm clientes com contas anuais e por isso conseguem estimar antes o quanto do montante movimentado ficará na agência (BV+comissão).
Sabendo quanta grana vai entrar, qualquer valor gasto será diminuir o lucro. É por isso que é tão complicado aprovar a contratação de novos postos de trabalho em algumas agências, mesmo com todo mundo virando noite. Um profissional a mais é menos lucro no final do ano.
Por isso também que não existe motivo pra levar o timesheet a sério. Como não se paga hora extra, já se sabe quando está gastanto e quanto está entrando. Então para o que serve o timesheet? Serve para evitar algum risco trabalhista, ter alguma formalidade na hora de cobrar o cliente ou atender as obrigações legais de sócios gringos. Não serve para medir se um projeto/campanha deu lucro ou prejuízo. Por isso também que o timesheet nestas agências não costuma pedir detalhamento de projeto, campanhas e nem mesmo o valor específico de horas trabalhadas. Ou é % do tempo total (ou seja, não se apontam horas) ou os profissionais são intruídos para que a soma das horas resulte em 8 horas por dia, mesmo tendo trabalhado 12 ou 14.
Se na teoria as horas não alteram a lucratividade, o gerente de projetos acaba sendo mais atendimento do que projetos, visto que entregar o projeto fora do prazo terá como principal conseqüência um cliente muito muito bravo.
Gestão de custos.
Modelo usado pela maioria das agências online e em muitas agências de marketing direto, apesar das agências de marketing direto também usarem comissão como forma de receita.
Quantas pessoas são necessárias para entregar este projeto ou campanha? Quanto custa isso? Bota lucro em cima e boas. Este modelo usa como base, a hora/homem para estimar seus valores, mas o cliente pode ser cobrado de várias maneiras:
- hora aberta: vai trabalhando e cobrando de acordo com o relatório de timesheet;
- projeto: estimando antes a quantidade de horas necessárias para um projeto e;
- retainer fee: um montante de grana por mês para manter uma equipe, por exemplo.
Neste modelo, contratar alguém “deveria” significa lucro, pois trabalhando mais, se cobra mais.
Neste modelo, saber exatamente se o que foi trabalhado foi pago é primordial, por isso, preencher o timesheet corretamente é lei. E como raramene um cliente aceita o modelo de horas abertas, não preciso dizer que um gerente de projetos incompetente pode dar um baita prejuízo para a agência (e/ou para o cliente).
Aqui abro um parênteses para explicar como é calculado o valor de hora/homem. É chato (mais até que o resto do post), então quem quiser que pule esta parte.
O cálculo começa com o valor de salário.
Adicionamos encargos. Com encargos leia-se 13º, férias, INSS, FGTS, incidência do FGTS sobre o 13º, vale transporte, programa alimentação, convênio médico, etc.
Depois o overhead. Também conhecido como gastos gerais ou custos indiretos, ou seja, os que não estão diretamente envolvidos na composição dos serviços. Entre eles: aluguel, IPTU, energia elétrica, água, material de escritório, manutenção de equipamentos, seguros, mão de obra indireta (depto administrativo, office-boy, secretária, etc.), etc. Em multinacionais, o salário do CEO entra aqui também. Sim, isso mesmo. Se você é daqueles que diz pro guardinha que te multou que paga o salário dele, você deveria meter o dedo no nariz do CEO e dizer o mesmo
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Por último mas não menos importante, o tal do lucro, afinal, agência não é ONG.
A soma destes valores é dividida pela quantidade de horas possíveis de serem vendidas e então chegamos no valor de hora/homem.
Algumas empresas utilizam a fórmula acima por tipo de profissional (programador sênior, diretor de arte junior, etc.) enquanto outras tiram um preço médio, neste caso, a hora do programador júnior custa o mesmo que do diretor de criação. Não existe certo ou errado, existe o que é mais adequado para cada empresa.
Diferentes mais iguais.
Dito tudo isso acima, não custa lembrar que se trata de uma generalização do que se vê na prática por aí, mas que muitas das discussões podem ser apenas filosóficas.
Por exemplo, apesar do que eu disse acima, seria fácil defender que o preenchimento correto do timesheet seria benéfico e necessário em qualquer modelo.
Outras afirmações também são questionáveis. Por exemplo, empresas sérias costumam analisar bastante antes de aumentar suas equipes, por isso a aprovação de uma nova vaga pode ser complicada em ambos os casos.
Além disso, o modelo de gestão de custos pode parecer mais transparente, mas na prática, a transparência vêm do relacionamento entre agência e cliente, não do modelo de cobrança.
A escolha do modelo nem sempre é opção da agência. A forma como o mercado trabalha, como os anunciantes estão acostumados a pagar e a diferença de lucratividade pode empurrar a agência para um modelo ou outro.
O que daria pra dizer, apesar de também ser discutível, é que existe uma tendência de longo prazo (e não me pergunte quão longo) de valorização do retainer fee. Em outras palavras, o cliente pagar um preço fixo para uma determinada equipe.
Também não é necessário dizer que uma empresa mal gerida terá problemas independente do modelo utilizado.
Para fechar, vale dizer que hoje, dado a transformação do mercado, é comum encontrar agências que ganham com BV, comissão, retainer fee, hora/homem e até sucess fee, tudo junto e convivendo bem…
…ou não.


No período de êxodo profissional que o Brasil vem passando, o tipo de gestão de custos adotado pelas agências tem um peso muito grande na decisão de um profissional permanecer no exterior ou voltar para o Brasil e vice-versa.
Como você descreveu acima, o timesheet de 8 horas ou simplesmente a não existência dele é um dos maiores downsides do mercado. As agências costumam justificar as horas extras como um investimento que será recompensando na forma de prêmios e destaques em festivais. Esse investimento sim é válido e todos nós já o fizemos, mas depois alguns anos, alguns prêmios e publicações qual é a justificativa para ele?
Se permanecemos no Brasil nenhuma. Digo isso, pois se trocamos de agência a próxima também não pagará hora extra e após atingir um piso de salário também não se tem muitos acréscimos. No fim com certeza a opção é sair do Brasil.
No exterior, além do mercado ser muito maior, com mais desafios e opções de trabalho, a remuneração é mil vezes melhor. Para começar, só o salário ou hora/homem normal já é no mínimo 2 vezes maior e se falarmos em hora extra aí a conversa fica mais séria. Aqui salvo raríssimas exceções, todas as agências e produtoras pagam hora extra e fins de semana, sendo que a hora de fim de semana sofre um acréscimo de 30% a 50% do valor normal.
Na minha opinião, a utilização do modelo de gestão por hora/homem e sua prática exercida de forma correta faria com que o mercado amadurecesse e se tornasse novamente atrativo no ponto de vista profissional. O micro mercado brasileiro precisa se tornar um mercado sério e profissional. Reclamar que os gringos estão roubando os brasileiros não vai adiantar, existe uma demanda absurda por profissional no mundo todo e eles descobriram que com pouco eles já estão oferecendo muito mais do que temos no Brasil.
Lógico que a evasão de profissionais não é só pelo lado financeiro, mas deixo isso para um próximo comentário.
Andrezza, eu entendo o que vc quer dizer, só acho a questao de hora extra muito discutivel.
Acho que trabalhar ate muito tarde (e finais de semana) acaba sendo um ponto bem negativo (apesar de existirem pontos positivos tb) do nosso mercado para muita gente (especialmente no momento de vida de algumas pessoas).
Mas apesar disso (eu sei, vcs vao me matar com essa minha opiniao), eu nao vejo esta diferenca brutal que vc comenta nao.
Voce mora fora e eu nao, mas assim como vc, tenho um monte de amigos espalhados pelo mundo (alguns deles, amigos em comum). Eu nao vejo eles ganhando hora extra. Vejo alguns deles trampando after hours e finais de semana pra cacete. E tambem vejo muitos deles viajando sem parar a trabalho (o que chega uma hora, enche o saco). Aqui sao poucas as pessoas que vivem na ponte-aerea (1 hora só de viagem), mas ai (nos EUA que é a terra da oportunidade) nego fica viajando sem parar (e tem viagem de 4 ou 6 horas) pq a grana (anunciantes) é muito melhor distribuida que aqui.
Ah, e só pra ser polemico de vez, eu nao vejo eles ganhando salario no minimo duas vezes melhor nao. Tem que lembrar que ganha em Euro, mas gasta em Euro. E tem que lembrar que muitos dos profissionais que estao ai sao pessoas bastante seniores e bem reconhecidas. Estas pessoas teriam condicao de ganhar mais aqui no Brasil.
Eu entendo que na média, ai na gringa é muito melhor.
Os peoes ganham mais, vivem mais. Diferente daqui (que sao todas), ai apenas algumas agencias fazem o funcionario trampar after hours. O respeito ao profissional é muito maior, os prazos muito melhores e a grama é mais verde.
Sobre salario, é inegavel que a qualidade de vida (mesmo nao ganhando muito mais) é mil vezes melhor.
Mas ainda assim acho que precisamos tomar cuidado com essa comparacao preto no branco que vc pintou.
É eu sei que fui muito simplista no meu comentário, mas vou tentar explicar melhor o que eu quis dizer.
Como eu falei anteriormente e como você também ressaltou, trabalhar horas extras é um investimento e muitas vezes valioso num determinado momento da carreira. Mudar de país, de cultura é complicado e querendo ou não, leva um tempo para a gente se adaptar, conquistar o nosso espaço e o status que tínhamos no mercado brasileiro.
Tenho vários amigos fora, também, sendo muitos deles amigos em comuns seus. Alguns deles sim, não ganham hora extra e tem que viajar o tempo todo, mas de novo como dissemos é um investimento e não simplesmente um fato a ser aceito.
Nós brasileiros quando chegamos aqui somos bombardeados com milhões de informações novas, novos modelos e ofertas de trabalho, e nos é exigido logo de cara uma postura muito mais profissional e ativa. Já de início temos a amarga constatação de que não sabemos negociar, não sabemos nos posicionar e não sabemos cobrar, seja financeiramente ou seja em reconhecimento. Vejo muita gente chegando e levando um choque ao descobrir que está ganhando mal ou que não negociou direito. A primeira reação é culpar o empregador, como sempre fazemos no Brasil, ao invés de entender que ele negociou direito. Tenho um caso para ilustrar isso.
Dois amigos meus, um vindo do Brasil e outro de Londres, foram trabalhar na mesma produtora. O brasileiro, não falando bem inglês, movido pelo febre de sair do Brasil, negociou um salário super baixo, não negociou ajuda de custo na mudança e não negociou horas extras. O amigo vindo de Londres foi contratado pela mesma empresa para ocupar o mesmo cargo recebendo o dobro do brasileiro, recebendo hora extra e com passagem e acomodação paga pelos primeiros meses até que ele ache uma casa.
Depois de um tempo e vários tombos a gente aprende a cobrar melhor, a se colocar e a planejar os investimentos a serem feitos. Com o tempo também ficamos a par das leis trabalhistas e de que tudo aqui é na base da negociação. Por lei é proibido não pagar ou não ter alguma tipo de compensação pelas horas extras. Se os funcionários não recebem em dinheiro, eles tem banco de horas ou algum outro tipo de bonificação. Provavelmente, os nossos amigos que não estão sendo pagos em dinheiro, devem ter algum outro tipo de acordo e com certeza eles aceitaram essa negociação porque estão fazendo um investimento.
É que eu acho que essa discussao toda de hora extra ou saber negociar independe do modelo adotado. Pode ser ate cultural, nao sei. A ideia ao escrever este post era explicar um pouco melhor algumas consequencias praticas e estimular a discussao de outras. Por exemplo, como fica a criatividade nisso? Sera viavel no Brasil um dia cobrarmos a inteligencia como acontece ai fora? Fazer com que o anunciante pague, por exemplo, para o criativo criar?
Bom, aqui na gringa onde trabalho, sempre tem o querido time sheet para preencher, devem ser colocadas todas as horas gastas no trabalho, de preferencia 8 horas por dia e se voce passou mais de 8 horas naquele dia trabalhando entao voce deve justificar porque ficou a mais… A empresa nao paga hora extra, porem da dias de folga (days in lieu) ou seja de tempos em tempos acabo sempre tendo um fim de semana prolongado. Isso nao eh toda hora claro… e quanto melhor o escopo do projeto menos horas extras acabam acontecendo. Por isso para empresa defender o dela e voce defender o seu, todo mundo acaba preenchando time sheet…
Agora, mesmo na gringa existem empresas com estruturas e estilos diferentes, algumas estao certinhas na pinta com o time sheet… outras alucinadas afogadas nas horas extras… portanto varia de caso p/ caso… nao da p/ generalizar. O pior caso de todos sao aquelas onde o time sheet existe, voce trabalha horas extras e nao eh pago nem recebe folga equivalente… isso tambem tem na gringa.
Nao da pra se ter tudo na vida… e tudo tem um preço.
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