Uma das coisas que me impressionou na viagem que fiz a Europa em dezembro foi a profundidade. Profundidade de discurso, de diálogo, de abordagem. Nos papos que tive (e não foram poucos), desconsiderando (tá, é difícil…) a diferença sócio-cultural que afasta nosso mercado do primeiro mundo, me chamou a atenção o quanto que tive de ser “profundo” ao me apresentar e apresentar a colmeia. O cara não tá interessado no seu portfolio - ele estava quando você marcou a reunião, e já não está mais obviamente porque afinal você está lá na frente dele, ela já viu o que você fez / faz. O que ele quer saber é como você construiu aquilo. Qual foi o ponto de partida. Que profissionais se envolveram no processo. Se existe algum “pulo do gato” ainda desconhecido que você pode mostrar pra ele.

Confesso que fiquei até com medo de abrir demais o jogo nas primeiras reuniões. Mas com o tempo fui não só incorporando mais profundidade ao meu discurso, também fazia as mesmas perguntas pros meus interlocutores. E funcionou: a paranóia do “segredo de estado”, de preservar a confidencialidade, não existe lá. Ou não pode ser chamada de paranóia. Em nome de uma sede por colaboração, por entender “what it takes” pra fazer acontecer as coisas, os limites e as fronteiras entre empresas, e entre elas e os profissionais, diminuem. E uma resposta que encontro pra essa vontade de aprofundar o papo logo de primeira assim, está na globalização e na multidisciplinaridade - cada vez mais presentes (espontânea ou obrigatoriamente, é outra questão) em interactive. É normal jogar aberto lá fora. Mais do que isso: é fundamental.

A gente voltou de lá com alguns projetos encomendados. Mas muito mais do que isso, a gente voltou de lá com a segurança de que, apesar do nosso mercado ser diferente, menor e portanto mais difícil, somos treinados na “guerra” (como disse o Ricardo Figueira no minidoc que fizemos). Temos o tal “extreme project managament” (valeu, passamani) impregnado na pele. Quer saber? A gente tem experiência em condições adversas.

O que falta a gente aprender? 80% das agências que visitei trabalham com equipes de frilas e produtoras localizadas em países diferentes. 95% das produtoras são verdadeiros hubs, onde se conectam pessoas diferentes a cada projeto. Deve ser pela cultura do Euro, do novo país que a Europa está virando, pensei. Deve ser muito por causa disso - mas vai além. Indianos, africanos, americanos e latinos formam uma massa de gente multicultural (além-europa), que habita com cada vez mais peso as agências. Sejam elas pequenas e independentes, ou grandes e mastodônticas. Acho que a gente devia aprender com isso. Misturar mais o nosso caldo. E ir mais no fundo da panela, preocupar-se menos com o “segredo de estado” e mais com a solução pro problema.

Antes que eu me esqueça: falta a gente aprender também um troço complicado. O managing director da agência, o estagiário da produtora e o diretor de marketing do anunciante pegam o mesmo metrô pra trabalhar todo dia. E aqui é melhor a gente encerrar esse papo de profundidade porque nesse aspecto aí, nosso buraco é fundo demais.

Eduardo Camargo é Diretor Executivo da colmeia | ink

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5 comentários

  1. 1 cava

    Oi Dudu, valeu pelo texto. Pode passar o nome e link das produtoras que vc visitou?

  2. 2 dudu

    Cava, foram vários lugares. Alguns nem existem oficialmente ainda :-P Outros estão em “transição”, mas cito aqui os que dá pra citar.

    Entre agências e produtoras - destacando as duas primeiras, onde tive a sorte de ter os diretores de criação delas por um tempo fora do ambiente da agência, o que foi muito bacana: Glue UK (Ricardo Figueira), W+K Londres (Pablo Marques), BBH, Profero, Preloaded (Londres). North Kingdom, Great Works e Farfar (Estocolmo). NextMediaLab (Milão). Tive reuniões com muita gente de produtoras de conteúdo e filmes tbem, fora dos respectivos headquarters: Smuggler, La Doble A, etc.

  3. 3 dudu

    Um lugar pra onde eu não fui por acidente (tava tudo planejado mas perdi o trem, literalmente) foi Gotemburgo. Queria muito ter conhecido os caras da Kokokaka pessoalmente (kokokaka.com).

    Na minha opinião (e acho que falo pela colmeia toda), os caras mais incríveis em produção de interactive no mundo hoje. O Pablo Marques compartilha dessa opinião também - pelo menos eu gravei ele falando isso :-P Se vc mudou de idéia de dezembro pra cá, Pablo, manifeste-se aí!

  4. 4 Camilo Oliveira

    É uma coisa que me irrita em algumas palestras.
    O cara insiste em ficar mostrando portfólio da agência, detalhando TODOS os cases sem falar nada da sacada que teve pra apresentar aquilo. Que fez e deu certo a gente pode ver (e na maioria das vezes já viu) antes da palestra, o que queremos de lá ( e até pagamos pra isso) é saber COMO dá certo.

  5. 5 Dgrull

    Treinar em condições adversas traz resultado? O Rocky Balboa bateu no Apollo
    e no Drago assim. Mas acho que por outro lado atrasa muito o desenvolvimento
    local, ou seja, profissional tem que sair daqui (Brasil) para poder se
    desenvolver.
    Acho que está na hora de reavaliarmos nosso modus-operandi. Grande parte
    dessas condições adversas existem somente dentro da cabeça de alguns, e
    depende do poder que esse alguém tem, consegue externalizar para muitos.
    O Brasil tem talentos e CONDIÇÕES, enquanto não acreditarmos de verdade
    nisso, vamos continuar fazendo o treinamento Balboa para sobreviver.

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