O texto é antigo, já foi publicado antes em algum lugar. Organizando a bagunça dos arquivos, acabei lendo e resolvi postar aqui no blog.
Aconteceu alguns anos atrás, a somatória da Páscoa e o fato de minha esposa ter uma escola infantil resultou na minha primeira experiência como animador de festinha. Acho que não preciso dizer que a fantasia foi alugada sem a minha presença e visivelmente não foi produzida para criaturas fora do padrão Gisele Bündchen como eu. Tenho certeza que era fantasia de coelha, e não coelho, mas tudo bem. Só não entendo a fantasia ser tão esbelta, era pra ser o Coelho da Páscoa e não o Papa-Léguas! Liguei para o fornecedor, mas infelizmente ele não tinha nada que se ajustasse às minhas curvas no prazo necessário. E a cliente – é claro – não queria mudar a data de entrega dos ovinhos de chocolate.
A primeira prova foi complicada: a cliente adorou, mesmo eu mostrando que não conseguia me mover direito. Ela não tinha verba para alugar outra fantasia e garantiu que a entrega seria suuuuuper-rápida, me convencendo que o fato de não conseguir sentar nem me abaixar com uma fantasia tão justa não seria problemas.
Chegou o dia, me troquei rapidamente no fundo da escola enquanto aguardava o sinal para entrar em cena. Foi quando escutei o sinal, os pequenos hooligans clamavam pelo coelho, como se estivessem meses sem alimentação. O grito era organizado e repetitivo, aumentando o ritmo a cada nova chamada.
Definitivamente, era um significado novo para a expressão Call to Action. Confesso que fiquei um pouco assustado, mesmo sabendo que se tratava de crianças com – no máximo – 5 anos de idade e mesmo sendo calejado de passar por situações difíceis como todo cidadão paulistano.
Andando em direção ao local do abate, descobri que abaixar não era minha única limitação – a cabeça da fantasia era grande, e o buraco feito na altura dos olhos do coelho inviabilizavam enxergar qualquer coisa abaixo da linha do pescoço. Deve ser como os especialistas em animação explicam a miopia de marketing.
A falsa percepção de organização causada pelos gritos contínuos e ritmados acabou imediatamente quando as crianças me viram. Um flash de quando fui atacado por um enxame de abelhas passou rapidamente pela minha cabeça. Uma pequena multidão correu em minha direção. Minha linha de visão não permitiu vê-los chegando, mas eles estavam ali, tive certeza disso quando alguém se pendurou no meu saco. Pelo peso achei que fossem três, mas fiquei sabendo mais tarde que foi apenas o Carlinhos. Maldito Carlinhos. Sim, como você pode imaginar, nessa hora eu senti saudades das abelhas. Culpa minha, eu tinha feito previsões para o fracasso da ação mas não tinha pensado em nenhum plano caso a atingisse esse enorme sucesso.
Dali pra frente não consigo descrever bem os detalhes, não sei se foi tudo muito rápido como a cliente prometeu ou se o trauma apagou as imagens da minha mente. Pensando bem, não tinha imagem nenhuma, o calor era intenso e o suor começou a cair nos olhos acabando com o pouco de visão que me restava.
Apesar dos gritos de alegria, identifiquei uma criança chorando. Eu não fiquei feliz com isso, mas pelo menos alguém compartilhava o sofrimento comigo.
No final até que foi legal, apesar de tudo. Agora entendo um pouco aqueles programas de sacrifício corporal de executivos japoneses. Minha alegria corroborou com a opinião da cliente, que insiste em dizer que reclamei à toa, mesmo eu mostrando o rabo do coelho pendurado por apenas um fio.
RSS
5 comentários
Antes que me perguntem, a imagem não tem relação direta com o texto. É um dos muros da escolinha e por acaso tem um coelho no meio. O desenho é do Braga, da Macacolandia e foi pintado pelo Brisola.
Eu realmente queria muito ver uma foto dessa ocasião…
Coelhinho,
se eu fosse como tu
tirava a mão do bolso
e enfiava a mão no
Coelhinho
Nem o fim é o fim, se cavucar ainda tem um pouco coelhinho
E que tal essa foto? haha