O processo de concorrência é o combustível do mercado de comunicação. Movimenta contas e oxigena agências, acelerando processos de contratações, demissões e novas campanhas. Novas campanhas repassam esta energia para produtoras e veículos.

Nos últimos meses, trabalhei para agências e para anunciantes em algumas concorrências e isso me ajudou a entender um pouco melhor como os dois lados da moeda enxergam o processo. A vida de consultor acabou, e por coincidência, o último trabalho foi em uma concorrência. E ela foi séria e respeitosa com as empresas envolvidas, o que mostra que nem tudo está perdido :-D

Em um movimento do qual dependemos como o ar que respiramos, não é tão estranho encararmos o assunto com tanta paixão e ódio.

Este post (assim como muitos outros) está escrito a vários meses. Não postei até agora por medo de ser mal compreendido. É importante que se saiba que se trata de uma generalização, e que cada agência e anunciante tem sua própria visão sobre o assunto.

E como toda generalização, tem suas falhas. Mas isso não impede que se faça uma critica. Bem, vamos ao texto.

Com a palavra, as agências:

O processo atual é tão penoso para algumas agências, que alguns profissionais acreditam que o manual do anunciante para concorrências tem apenas 6 parágrafos.

  1. Convide muitas agências para participar, oito é um número mágico. As convidadas não precisam ser parecidas nem em porte, nem em perfil (direct, tradicional, digital, design, etc.).
  2. A concorrência será avaliada através de uma campanha. De preferência a maior campanha do ano. Aquela que deveria ser feita pela agência com um prazo melhor, com muito mais informação e participação do anunciante comparado ao que acontece na concorrência.
  3. A agência escolhida será a que entregar o melhor projeto no menor custo. Na verdade, a escolhida será o menor custo, com as idéias levantadas por todas as agências durante a concorrência.
  4. A concorrência não será remunerada ou a remuneração será um valor simbólico. Dez mil reais para despesas é um ótimo valor. Significa que a criação e o planejamento não serão remunerados, forçando a agência para ganhar na mídia e em comissão de produção. Mas ganhar BV ou comissão é errado, então esprema este valor ao máximo.
  5. Não defina a verba, ou diga um valor 3 vezes maior que o budget real. Uma cenoura grande e brilhante fará a agência se esforçar mais. A agência vencedora pode refazer a campanha adequando ao “novo” budget. Sem cobrar, afinal, o projeto já estava pronto, é só cortar uma coisa aqui e outra ali.
  6. Quando chegar na data prevista para divulgar o resultado, espere mais um mês, ou dois.

O outro lado da moeda, os anunciantes

Por ter um time enxuto (e regras bem radicais para não aumentar o overhead), o anunciante precisa aproveitar a concorrência para poupar tempo e dinheiro. Assim, nada melhor que usar o maior projeto do ano.

Concorrências são investimento da agência em aquisição de clientes, e como subtende-se que será a escolha de um parceiro por cerca de 4 ou 5 anos, não pagar pela concorrência é justo. Como os anunciantes são espremidos por centavos (pelo CEO ou pela matriz), eles não podem abrir mão de usar a concorrência para diminuir custos.

Todas as agências têm um discurso muito parecido, por isso na concorrência existem agências com perfis tão diferentes.

Na verdade, aos olhos do anunciante, muitas agências parecem iguais. Por receio de perder budget ou não participar de concorrências, algumas agências tentam passar uma sensação de ser especialista em absolutamente tudo.

Internet? Somos os melhores? CRM? Idem. Branding? Opa, tamos aí. A situação beira ao ridículo. Se o anunciante disser que precisa de alguém que entenda da muralha da china e de macacos albinos, algumas agências dirão que seu CEO participou da construção da muralha e – por uma incrível coincidência – hoje é casado com um macaco albino.

Também existem clientes que têm forte preferência por uma agência. Não estou falando de cartas marcadas (nem de bola), estou falando do cliente ter uma pré-disposição muito grande para trabalhar com uma agência de forma que dificilmente uma concorrência mudaria a opinião. Neste caso, fazer a concorrência acaba servindo para cumprir questões formais (regras da matriz) e espremer a agência escolhida pelo melhor custo.

Isso explica também porque a demora em divulgar resultados. Porque durante a negociação final (aqueles pequenos ajustes antes de assinar o contrato), se o vencedor se torna público, a agência que levou a conta passa a ter mais poder, afinal, ela “já” levou a conta, mesmo que o contrato não esteja assinado.

O que eu acho?
O histórico da agência deveria ser levado mais em conta. Mas não com apresentação boba de credenciais. Uma apresentação formal com cases que tenham relação direta com a necessidade atual do anunciante que está abrindo concorrência. É muito mais provável que a agência que acertou mais no passado, acerte também para este anunciante.

O resultado de uma concorrência significa o início de um relacionamento. Relacionamento que ambos os lados esperam que dure um bom tempo. Começar este relacionamento com transparência seria o melhor movimento para fazer dar certo. Os dois lados visam lucro, isso não é segredo, muito menos motivo para vergonha.


4 comentários

  1. 1 Klug (reply)

    Otimo post! O que seria de nós sem essas malditas concorrencias? :)
    O grande problema acontece quando alguns anunciantes resolvem ter uma agencia e ao mesmo tempo fazer concorrencia por projeto… aí todos os projetos são feitos na correria, todos tem prazo e verba apertada, e todos acabam saindo aquela coisa…

  2. 2 Mug9 (reply)

    Cava, concordo com você que o histórico da agência é super importante. Isso com certeza é a forma mais honesta de mostrar resultados de um bom trabalho.

    Se eu fosse cliente, uma coisa que eu analisaria era o índice de turn over das marcas da futura agência. Quantas contas foram ganhas, quantas contas foram perdidas. Afinal, a idéia é ter uma relação a longo prazo.

    O que eu não gosto em concorrência é que, não mostra de uma forma clara um trabalho a longo prazo. Muitas vezes uma concorrência tem por objetivo dar um show… Daí, os melhores profissionais daquela agência são colocados em uma salinha e criam uma campanha maravilhosa, de fato. Mas, o que acontece com aquelas marcas que já pagam para aquela empresa trabalhar pra eles? Ficam sem equipe para fazer os job? Acho que é um ponto a ser lembrado.

    Mas, concorrência faz mexer o mercado. Isso é bom porque fazem as agências se mexerem e nunca pensarem que podem ficar paradas. Elas sempre precisam buscar algo novo senão, alguma outra agência acha primeiro.

  3. 3 Moa (reply)

    Fala Cava,

    Não entendo muito a lógica das concorrências. Sei que o dinheiro responde a qualquer pergunta, mas, diferenças à parte, já pensou como isso funcionaria em outro mercado?

    Suponhamos que eu queira um carro novo. Ao invés de escolher um modelo e comprar, resolvo chamar todas as montadoras na minha casa. Aí eu conto detalhes do meu estilo de vida e falo como eu gostaria que meu carro fosse.

    Depois de um mês, cada montadora traz um carro, exclusivamente criado para mim. Moleza, eu escolho o melhor carro, com o menor preço. Assino o cheque, felizão. Só que quando vou ligar o carro para dar uma volta, o motor não pega.

    - Ei, o carro que vocês me entregaram não funciona.
    - É que como as bases do seu pedido eram um tanto superficiais, conseguimos montar só a carenagem.
    - Mas não dá pra fazer ele funcionar então?
    - Daria, mas vai custar o dobro, e demorar o dobro também.
    - Não tenho essa grana. O que vocês me sugerem, então?
    - Vamos fazer um carro novo, do zero. Esse daí não foi planejado para o asfalto, foi desenhado para ser exposto em uma vitrine.

    Pra resumir, concordo com a parte de conhecer bem os fornecedores, ver o histórico deles, estudar seus cases de sucesso e de fracasso. Só não sou muito fã da história de criar uma campanha com base em informações superficiais, em um prazo ridículo que irá consumir madrugadas e fins de semana de equipes inteiras.

    Se eu fosse cliente, tentaria escolher a fábrica, não um protótipo oportunista.

  4. 4 TheSoulSurfer (reply)

    Como profissional de comunicacao acho que a concorrencia oxigena o cerebro, te faz sair da mesmice e te poe pra pensar de forma mais intensa… te tira da zona de conforto… e de certa forma serve como um indicativo se o seu trabalho se mantem forte, atualizado, competitivo… ano passado participei de cinco concorrencias p/ clientes diversos, vencemos tres… sabiamos quem eram nossos competidores e me serviu p/ ter uma melhor imagem de como estou me saindo perante o mercado.

    Participar de concorrencias com moderacao é algo saudavel.

    So um minuto que tao me chamado aqui…
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    Voltei… tavam me contando que ganhamos mais uma…

    haha!

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