Tem uma coisa que o período pós bolha mostrou para quem não trabalhava com o mercado financeiro. Investidores realizam prejuízo muito fácil. Eles podem ter colocado uma fortuna em uma empreitada, mas se percebem que o negócio miou, não enfiam mais um único centavo. Isso aí, nada de colocar dinheiro bom em cima de dinheiro ruim. Vai quebrar? Que quebre de vez, o dinheiro bom vai para outro investimento. Qualquer um que traga mais retorno. Sem ressentimentos.
Em agências, via de regra, todo dinheiro costumava ser dinheiro bom. Isso porque uma conta anual com um número específico de campanhas tinha seu faturamento garantido através de uma parte do montante. Funcionários trabalhando até tarde e finais de semana sem hora extra garantiam a gordura para garantir uma entrega mais apertada sem custos extras.
Mas a falta de divisão de disciplinas, a irregularidade de alguns clientes que insistem em trabalhar por projetos (e às vezes com concorrências em cada um deles), a necessidade de campanhas fora da caixa e a demanda por especialistas diferentes fez o cenário mudar um pouco.
Terceirizar parte desta demanda ainda é complicada por falta de empresas que entreguem com qualidade a um custo razoável. Indicar produtoras em algumas especialidades é mais difícil que indicar um bom contador ou um bom marceneiro.
Outro problema é que, no período que vivemos, onde todos têm o mesmo discurso e brigam por centavos, qualquer agência é concorrente de outras, independente do porte ou especialização. E para piorar, muitas produtoras se auto-denominam agências e atendem clientes diretamente. Basta ter um diretor de arte e um redator e pronto, são uma agência. Por este motivo são considerados (e com razão) concorrentes pelas agências de verdade.
Neste cenário, pelos motivos citados acima, parte considerável da produção passa a ser feita dentro da agência fazendo com que ela cumpra também o papel de produtora. Não é novidade para agências digitais, mas é novo para as chamadas tradicionais.
Agências rejeitam esta idéia de terem parte do seu faturamento vindo de uma operação que possa ser reconhecida como produtora, mas o que pega aqui não é uma questão conceitual, é mais importante que isso. Trata-se do gerenciamento correto de projeto e tempo de produção. Agências não nasceram para fazer isso, por isso têm tráfego e não gerentes de projetos.
Quando cumprem apenas seu papel de agência, passando a produção para uma produtora, um prazo estourado faz os funcionários da produtora contratada ficarem noites sem dormir. Um trabalho mal orçado (ou mal pago, não importa) é empurrado para produtoras menores ou goela abaixo das maiores que são obrigadas a aceitá-lo para não desagradar a agência que os alimenta.
Qualquer dinheiro é dinheiro bom se executa o trabalho de “agenciar” a produção, ganhando uma parte fixa no budget total, não importando se ele é em forma de %, comissão ou BV.
É uma generalização grosseira dizer isso, mas o modelo de receita tradicional é muito mais simples que cobrar por hora homem, método mais usado por empresas de BTL.
Mas quando a agência absorve o trabalho de produtora, o gerenciamento mal realizado do projeto ou um orçamento mal feito traz prejuízo. Vender, papel normalmente destinado aos atendimentos passa a ser muito mais complicado. Aceitar um projeto por qualquer preço pode significar prejuízo, baixando a lucratividade deste cliente (ou causando prejuízo). Em outras palavras, dinheiro ruim.
Delicadíssimo em momentos onde passar o projeto para uma agência especializada pode abrir uma porta para perder parte considerável da verba ou até risco de perder o cliente.
4 comentários
Comentários em blogs:
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Pingback on Jan 3rd, 2008
[...] esta a sua opinião, a quantidade de agências deve estar caindo bastante. Isso porque esta “porção produtora” está se tornando comum em praticamente todas as agências. Até mesmo nas digitais onde [...]
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Aceitar por qualquer preço é ruim inclusive pro mercado, pois se a moda espalha existirão agências (ou já existem) que fazem qualquer negócio, baixando o valor de mercado de forma inviável para aquelas que possuem um pouco mais de custo fixo.
Bom post Cava, bem lúcido. O que consigo enxergar aqui no mercado do Reino Unido, é que as produtoras funcionam de forma parecida com o Brasil, mas com o modelo de receita tradional. O que presupõe valor “fixo” por projeto – com variação de acordo com a demanda e cagadas dos clientes/agências – o que faz o gerenciamentop ser muito mais simples.
A grande diferença é que as produtoras se especializam e mantém a tradição de serem focadas em um tipo especifico de resultado ou estilo. O que faz clientes, que tem uma noção muito grande de como funciona e quem são os grandes players em cada área, comisionarem trabalhos direto com a produtora.
Isso é completamente diferente no Brasil porque o cliente não tem muito conhecimento do que é o mercado em si, conhece única e exclusivamente as agências, que fazem o máximo pra manter seus fornecedores escondidos.
Esse são os meus 2p. tentando adiconar uma perspectiva mais global no post.
lúcido é meu sobrenome. Ricardo Lúcido Cavallini