a saga da arquitetura de informação no Brasil


O que faz um arquiteto de informação (AI)? Define o fluxo de navegação, o peso dos elementos em uma página, a ordem de leitura, etc. E antes disso, define as personas. E toma decisões baseadas em pesquisas, não um dedo molhado ao vento. É o profissional que dá luz a expressão “Form Follow Function”. É a voz do end-user. AI é uma ciência.

Esta profissão teve seu momento de glória no Brasil. Diferente de outros que foram supervalorizados durante a febre ponto com, o AI teve sua época de ouro depois da explosão da bolha.

Foi depois da explosão que chegamos ao fundo do poço e a Internet virou um palavrão que dava vergonha e asco em muitos clientes. Colocar qualquer centavo em web era – desculpe o francês – visto como uma cagada dos infernos. As agências e produtoras que sobraram sofriam muito para convencer seus clientes e evitar que enviassem seus trabalhos aos sobrinhos de plantão.

Quem viveu esta época lembra que uma das principais argumentações era o tal AI. Arquitetura virou o diferencial das agências digitais. Vender AI mostrava que o processo tinha inteligência e que visava resultados. A estrutura das agências justificava o valor mais alto comparado aos sobrinhos que somente pintavam pixels. Era difícil convencer o cliente que o diretor de arte da agência era melhor que o sobrinho, mas o sobrinho nem sabia o que era arquitetura de informação.

O AI ganhou status de princesa e foi valorizado pelo motivo errado. O problema é que, quando todo mundo já tinha o mesmo discurso, deixou de ser diferencial e passou a ser commodity. Sem mais valia para agências, esta tão importante disciplina acabou sendo ignorada. Nos últimos anos cansei de ver um profissional sair da agência e não ser reposto.

Chegamos em 2007, a bolha não nos incomoda mais e na maioria das agências o trabalho de AI é executado pela galera de projetos, criação ou até mesmo pelo atendimento. Em outras palavras, é feito por obrigação, porque o cliente pediu.

Ainda existem arquitetos no Brasil. A Agência Click é a única com um time grande, mas 8 ou 10 agências ainda mantém um profissional na casa. Por isso este momento é importante. Importante porque se 2 ou 3 profissionais de AI resolverem vender caranguejo na estrada pode fazer toda a diferença do mundo para o mercado. Podemos até dizer que estamos em um momento do vai ou racha para esta profissão.

Se você é cliente, procure conhecer quem faz esse trabalho pra você. Se não for um profissional especializado, talvez seja melhor decidir entre exigir a contratação de um (e pagar por isso) ou aceitar que o trabalho não seja mais feito. Porque, fazer por fazer, é dinheiro jogado fora.

Sou a favor de decidir logo. Ou vai, ou racha.

21 comentários

  1. Camila says:

    Cava, o maior problema do Brasil eh que ninguem ai faz mega sites – as agencias acabaram se especializando em campanhas e hotsites. Sao projetos bem mais curtos, sem muita verba, que nao justificam um IA – e talvez nem sejam grandes desafios para os proprios IAs.

    Seria bem legal se o Brasil comecasse a investir em sites grandes e mega projetos. Se rolar, me avisa. Eu faco minha mala e volto. ;)

  2. Felipe Ruiz says:

    É importante que se diga que a internet brasileira não se resume as agências. Os grandes portais (IG, UOL, Terra,…) necessitam muito de arquitetos como também grandes empresas que possuem uma rede muito extensa de sites como a Globo e a Abril e os e-commerces. Que arquiteto que não se divertiria trabalhando em um site desse tipo?

    A Internet das agências apresenta um desafio muito diferente do que o de trabalhar em um mega site onde o acompanhamento é tão importante quanto a concepção. Nas agências os arquitetos tem que servir como suporte a criação, pois esta é a coqueluche do lugar e de certa forma o trabalho do arquiteto fica limitado.

  3. dgrull says:

    Além de enxergar o big picture do projeto, estudar e oferecer opções para melhorar a usabilidade da interface do site, o arquiteto também é responsável pela otimização para mecanismos de pesquisa como o google.

    Portanto acredito que exista muito trabalho para AI mesmo em hotsites ou projetos de landing pages, blogs ou big sites.

    Trabalho com AI a muito tempo e vejo hoje no mercado um amadurecimento e importancia da função muito maior do que no período pos-bolha.

    • bandaidx says:

      É isso mesmo cara. Também trabalho com AI há anos. O que aconteceu naturalmente pois tenho formação baseada em sistemas mas experiência profissional em design. E acho que entrei nessa justamente por abolir o bonitinho mas ordinário.

      Trabalho em uma desenvolvedora de sistemas, e não em agência. E hoje, como nem sempre a AI é incorporada em todos os projetos (o que acho uma pena, pois por mais simples que seja, informação é informação e precisa ser bem tratada por quem entenda), alternamos meu cronograma entre tarefas relacionadas ao controle de qualidade (QA) e AI.

      Ou seja, pra quem faz AI, é muito gratificante saber que está participando, pelo menos, do início e do final do projeto, com o intuito de agregar conhecimento e inteligência ao produto.

      Pra mim funciona legal, então fica ai a dica pra quem quer se manter no mercado, de forma útil, sustentável (no sentido financeiro, para o contratante) e fazendo o que gosta ;)

      E cara… AI tá rachando, e muito… sábias as empresas que sabem aproveitar esta mão de obra. Na era dos gadgets, touchs e sistemas em nuvem, uma boa AI é essencial pro sucesso.

  4. cava says:

    Legal Dgrull, mas quem paga por SEO no Brasil? SEO é apenas um parte do trabalho e ainda menos valorizado que o resto que um AI faz.

    Amadurecimento e importância da profissão não significa reconhecimento do mercado, que se traduz em grana, número de cargos e alteração do processo para envolver mais um profissional de AI. Isso eu não vejo.

  5. Juliana says:

    Pois é, Cavallini, e nós que precisamos por questões metodológicas e levamos a disciplina a sério temos muita dificuldade para encontrar gente qualificada. Aliás, se tiver um arquiteto pra me indicar, agradeço. :)

  6. Klug says:

    Eu acho que, como você falou, AI deveria ser focado em pesquisas, e o mercado de internet brasileiro usa muito pouco pesquisas. Daí fica dificil estruturar um site, levando em consideração apenas experiência, ainda mais por que a maioria dos profissionais nas agências tem menos de 7 anos de mercado (e isso é uma experiência ainda muito pequena).

    Aí termina que o arquiteto, na maioria dos casos, pega o projeto com o bonde andando, transforma o briefing em quadrados pretos-e-brancos e acaba não acrescentando ao projeto tudo que poderia acrescentar. E perde a credibilidade na criação, que aos poucos começa a ignorar a estrutura do wireframe e fazer tudo da própria cabeça.

    Tem muita gente boa nesse mercado, e se as coisas entrarem no jeito o Brasil tem tudo pra melhorar nessa área de websites, onde ele é tão fraco perante o mercado internacional.

  7. Marcelo De Polli says:

    Perfeito, Cava. A arquitetura de informação deixou de ser diferencial porque nunca foi de verdade. Porque raríssimas vezes foi aplicada da maneira correta. Em outras palavras, sempre foi algo que as agências tinham pra dizer que tinham.

    Sejamos francos. Salvo raras exceções, o trabalho de AI se resume à produção de um único documento, o famigerado wireframe. Como se a simples existência dessa etapa fosse um elemento mágico capaz de garantir, numa tacada só:

    - A adequação ao público-alvo

    - A usabilidade da interface gráfica

    - A facilidade de encontrar as informações

    - A acessibilidade pelo maior número possível de pessoas

    - E, mais importante, o valor real que o projeto está trazendo para o cliente que está pagando a conta.

    Um pouco mais difícil de enxergar é que, sim, é possível garantir tudo isso num projeto. Só que esse trabalho não está no wireframe, está ao redor dele. No documento de diretrizes estratégicas. No documento de análise de tarefas. De estrutura taxonômica. De estrutura de conteúdo. De entrevistas com usuários. De testes com usuários. De conclusões das entrevistas e dos testes. De análise de mercado. De análise de métricas de servidor.

    Esse trabalho é diferencial e vai ser sempre diferencial. O primeiro que puser isso em prática ganha o mérito de tirar a Web brasileira do ano de 1998. Já o prêmio lá no Festival de Cannes, esse eu não sei se ganha não. :-)

  8. Felipe Ruiz says:

    Por falar em arquitetos sem credibilidade e sem embasamento em seus quadrados pretos-e-brancos. Eu como arquiteto ainda em formação e com muito a aprender sinto muita falta de uma instrução acadêmica. Tudo bem que trabalhar na área e ralar dia após dia a gente acaba aprendendo muito, acredito que muitos concordem que a prática é uma ótima professora, mas será que nos torna suficientemente embasados, a ponto de conquistar a credibilidade da criação? Tenho certeza que não.

    Faltam também, pelo menos ao meu conhecimento, casos (nacionais) em que a arquitetura diferenciou o projeto, casos que possam ser admirados e respeitados e que mostrem que nós arquitetos temos uma razão se ser muito forte.

  9. Valdisney Quirino says:

    Sabe, eu tenho dificuldades de abrir arquivos .AI

  10. cava says:

    Valdisney, acho que não é só isso que você tem dificuldades né?

  11. Perrone says:

    Camila, acho que a arquitetura da informação de muito site pequeno (arriscaria, de alguns e-mails) é mais complicada do que muito mega hiper site. Aliás, apesar de haver alguns arquitetos de informação por aí, acho que ainda não existe uma profissão chamada Arquitetura da Informação simplesmente pq me parece que esta função ainda está para mostrar sua cara: que vai muito além de desenhos em PB que parecem coisas chiques – e que os diretores de arte ignoram. Queria MUITO saber como a Organic e a Razorfish fazem isso hoje, acho que se tem alguém que faz, são eles.

    AH!! Tem também a arte da inclusão, que até agora não vi arquiteto que soubesse tratar. Fabio Adiron poderia nos ajudar.

  12. Marcelo De Polli says:

    Hoje em dia, a minha referência para metodologia de experiência do usuário é a Adaptive Path. Atenção para o livro que a Indi Young está escrevendo sobre análise de tarefas e que vai sair pela Rosenfeld Media. Vai ser animal.

    http://www.rosenfeldmedia.com/books/alignment/

  13. Camila Uchoa says:

    Oi, Perrone.

    Vc ta enganado: site pequenos sao infinitamente mais faceis do que mega projetos. Eh muito mais simples lidar com poucas paginas e nao ter que pensar em estrutura, organizacao e navegacao.

    Fora do Brasil, as agencias valorizam muito os IAs – nao so a Organic ou a Razorfish. A Blast, Critical Mass, RGA sao otimos exemplos tambem. Pelo o que eu escutei, me parece que falta suporte pra que os profissionais possam colocar em pratica tudo que eles sabem. Acredito muito que os AI dai merecem ser muito mais respeitados e ouvidos do que sao. Afinal tem muitos IAs super talentosos no Brasil, levando a profissao super a serio, estudando e fazendo acontecer.

    Ps: nao entendi o que vc quis dizer com a arte da inclusao…

  14. jean boechat says:

    eu to meio em falta com coxacreme, querendo ler um monte de posts atrasados, comments de gente interessante e comentar, mas o tempo tá curto. sendo assim: to precisando de estagiário de arquitetura de informação. se alguém souber de alguém… =^)

  15. Perrone says:

    Camila, tenho muita segurança do que afirmei e também de que você entederá o que eu quis dizer: o que determina a dificuldade e a complexidade do projeto de arquitetura da informação é a complexidade da informação para o publico que vai consumi-la (para falar culto: por um problema de paradigma ou de sintagma, tanto faz), volume é apenas uma variável e, na minha opinião, a menos importante delas.

    Sobre inclusão: fazer um site que valorize padrões de Acessibilidade é dificílimo. Fazer o básico (nomear botões, etc) é facil, mas é muito dificil pra quem não sabe como uma pessoa com dificuldades de acessibilidade consome informação pensar como ela deve ser organizada.

  16. Marcelo De Polli says:

    Calma aí. Estamos falando de coisas diferentes. O fato de um conteúdo ser de difícil absorção por determinado público (por uma questão de paradigma ou sintagma, como você disse) é uma coisa, e é preocupação de arquitetura de informação sim. Mas a complexidade de uma estrutura de informação é outra coisa. É possível falar de uma medida de complexidade que seja independente do público. E não, isso não depende de "volume". Complexidade é um pouco difícil de definir, mas certamente é algo que não depende só de fatores quantitativos. A complexidade é uma medida da possibilidade de organizar ou ordenar um conjunto de informações.

    Pode existir uma estrutura pequena que seja muito complexa, assim como pode existir uma estrutura grande e simples. Basta pensar que é possível ter 40 mil tipos de pregos organizados por comprimento e formato da cabeça — mas essa estrutura não é complexa, porque pode ser completamente ordenada por esses dois critérios. Aliás, esse é um exemplo real de um cliente atual que é um retailer da área de construção.

    Enfim. Tudo isso para dizer que existe, sim, uma coisa chamada complexidade de informação e que é independente do público. Nesse ponto a Camila tem razão: as estruturas de maior complexidade são justamente onde o arquiteto de informação é mais necessário. Mas, ao mesmo tempo, existe o que você está dizendo — a dificuldade de absorção dos conceitos por determinado público. Só que eu não chamaria isso de complexidade. Pode chamar do que quiser, eu não me importo. Mas, só aqui no meu comentário, vou chamar de absorção. :-)

    Como as duas coisas são independentes, elas podem aparecer ao mesmo tempo no mesmo projeto. E, entre um hotsite com problemas de absorção e uma intranet corporativa de uma empresa de 50 mil funcionários que TAMBÉM tenha problemas de absorção, o arquiteto de informação será mais necessário no segundo caso.]

    Os projetos de agência, de modo geral, não apresentam nenhum desafio do ponto de vista da arquitetura de informação. É coisa que você mata em um dia de trabalho. Se você fala em projetos que têm um mês só de arquitetura de informação, as pessoas na agência acham que você ficou coçando esse tempo todo, porque elas não conseguem imaginar o que é um projeto assim.

    A bem da verdade, em agência os arquitetos não têm a possibilidade de ter contato com projetos realmente complexos. Eu já fiz alguns, mas sempre fora de agências. É coisa do próprio modelo de trabalho e da forma como esse modelo é percebido pelos clientes. Se o cliente tem um site com 200 mil produtos ou uma intranet com 20 anos de documentos acumulados, dificilmente ele vai pensar que uma agência é o tipo de empresa mais adequado para esse trabalho. E o fato é que não é mesmo. :-)

  17. cava says:

    Interessante este exemplos dos pregos, o que mais poderia ser categorizado pelo formato de cabeça e comprimento?

  18. TheSoulSurfer says:

    Arquiteto de informacao tambem eh muito importante na industria de video games… cada jogo contem uma documentacao assustadora… paginas e paginas com wireframes e cada tela eh debulhada em detalhes…por exemplo, a funcionalidade de cada botao num momento especifico do jogo… arquivos enormes sao atualizados direto no servidor assim se voce abre o ducumento que esta no servidor sempre abrira a versao mais recente… e nao fica trabalhando em cima de um documento de 500 paginas obsoleto…

    Outra coisa, especialmente no Canada… empresas de web competem com empresas de video game na contratacao de AIs… eh muito comum o fluxo de profissionais em ambos os sentidos…

    • bandaidx says:

      Bem lembrado cara… e graças à grande visão desses contratantes é que isso acontece…

      E o motivo é simples: IA que não interage, não compreende interação. E consegue imaginar interação mais elaborada e analítica do que games?

      E o público é que impulsiona a qualidade interativa, a inovação… pois ele, o gamer, por ter uma gama de opções muito grande, tem uma base vasta de comparação e uma percepção praticamente imediata do que é bom ou ruim. Por isso, no fim das contas, a jogabilidade é que fala mais alto do que qualquer outra característica que possa assegurar a boa experiência.

      +- OFF :D
      Lembro de uma interface de um game que me impressionou… ao ponto de me fazer sorrir pela genialidade. Alguem conhece o game Dead Space? É um jogo lançado em 2008 pela EA, baseado em uma história de terror e sci-fi. Fizeram também anime e comics pra ele.

      Pra quem tiver interesse… dá uma olhada e me diz se não tem dedo de um IA nisso…

      (percebam que não tem nenhuma informação na tela. O medidor de energia do personagem é essa faixa iluminada em suas costas).

      • bandaidx says:

        Po… falando das duas coisas que mais gosto de fazer… agora me empolguei :D

        Olha mais um bom exemplo… http://www.youtube.com/watch?v=5oirFKi6Sfo

        Pra chegar num nível desse, transformando algo relativamente complexo em algo simples e de fácil compreensão, tem que ter muito "User Experience" correndo na veia. Tem de entender de RIA, usabilidade, design de interação, ergonomia, infografia, semiótica e logicamente, ter jogado muito game ;)

        Não esqueçamos também de testes, testes e mais testes… o que aqui no Brasil, quando se fala, simplesmente riem da sua cara.

        OFF ++: Alguém conhece o Fred Van Amstel do Usabilidoido.com.br? Ele estaria, como diria um amigo meu, aos "jatos" discutindo isso heheh

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